Um evento climático extremo deixa marcas profundas. Pense em mais de cem vidas perdidas, um milhão de pessoas afetadas ou um estado de emergência declarado. Só neste ano que está terminando, o mundo registrou 157 desastres dessa magnitude. A ciência investigou 22 deles a fundo. Em 17 casos, a influência das mudanças climáticas foi clara e direta. Os outros cinco não trouxeram alívio para quem duvida do aquecimento global. Apenas faltaram dados para uma conclusão definitiva.
Esse cenário revela uma triste realidade. A desigualdade que vemos na sociedade também contamina a pesquisa científica. Comunidades mais vulneráveis são as que mais sofrem com as tragédias. E são justamente essas regiões que, muitas vezes, não possuem informações detalhadas para estudos precisos. É um ciclo difícil de quebrar. Cientistas de um consórcio internacional analisam como o clima alterado pelo homem intensifica esses eventos. Eles mostram que os limites para nos adaptarmos a um planeta mais quente e instável já estão sendo ultrapassados.
Mas será que o ano foi realmente tão ruim? A resposta, infelizmente, é um sim muito claro. Novos extremos surgem continuamente. Ciclones, ondas de calor, inundações, secas e incêndios florestais batem recordes. As temperaturas médias globais nunca estiveram tão altas. Os eventos recentes confirmam um aviso antigo. Estamos vivendo exatamente o clima que os especialistas previram há uma década, quando o Acordo de Paris foi assinado. A promessa de controle ainda não se tornou realidade.
O peso de um grau a mais
Desde 2015, o mundo aqueceu cerca de 0,3°C. Parece pouco, mas o impacto é enorme. No total, já estamos 1,3°C acima dos níveis pré-industriais. O principal motivo segue sendo a queima de combustíveis fósseis. Esse aumento aparentemente pequeno mudou a frequência do calor extremo. Em média, ganhamos 11 dias extras de calor intenso por ano. É como se o verão brasileiro chegasse mais cedo e fosse mais severo.
As metas climáticas atuais evitaram um futuro ainda mais assustador. Sem elas, caminhávamos para um aquecimento de 4°C. Agora, a projeção é de cerca de 2,6°C até o fim do século. É uma redução substancial, mas insuficiente. Um mundo nessa temperatura ainda seria perigosamente quente e cheio de surpresas desagradáveis. O limite de 1,5°C, considerado mais seguro, já foi ultrapassado na média dos últimos três anos.
Isso não é uma preocupação distante. É um problema do presente. Autoridades já discutem o “overshooting”, quando o planeta opera acima do limite ideal. A única saída seria remover gases de efeito estufa da atmosfera posteriormente. Uma tecnologia cara e ainda inviável em grande escala. Enquanto isso, os extremos se multiplicam. No Sudão do Sul, uma onda de calor que antes acontecia a cada 1.600 anos, agora pode se repetir a cada dois.
Dados que assustam e lacunas que preocupam
Os números de 2025 são eloquentes. Ondas de calor e inundações lideram a lista, com 49 eventos catastróficos cada. Tempestades fortes aparecem em seguida, com 38 registros. Incêndios florestais, secas e até ondas de frio intenso completam o quadro. Na Europa, um estudo detalhado mostrou o custo humano. Cerca de 24,4 mil pessoas morreram devido ao calor elevado entre junho e agosto. Isso em 854 cidades, onde vive 30% da população continental.
Alguns recordes chamam atenção pelo inusitado. No Quirguistão, na Ásia Central, os termômetros marcaram 30,8°C em março. Algo completamente fora do normal para a época. Uma onda de calor de cinco dias na região estava até 10°C mais quente do que os modelos previram para um mundo sem influência humana. Padrões parecidos foram vistos na Groenlândia e na Escandinávia. Eventos que antes eram improváveis, hoje se tornaram quase normais.
A falta de dados, porém, é um obstáculo enorme. Inundações, um dos itens mais observados, acumularam casos de estudos inconclusivos. Em abril, a cheia de um rio em Kinshasa matou 33 pessoas e destruiu estradas. Não foi possível atribuí-la claramente às mudanças climáticas. A capital do Congo tem quase nenhuma estação meteorológica. Muitas vezes, os modelos climáticos usados foram desenvolvidos para o Hemisfério Norte. Eles falham em capturar a realidade das chuvas extremas no Sul Global.
A ciência precisa ser de todos
Essa desigualdade dentro da própria ciência é um problema grave. Para estudar eventos em regiões desassistidas, os pesquisadores dependem de ferramentas inadequadas. Isso impede conclusões confiáveis e atrasa respostas. Investir em adaptação vai muito além de construir barreiras. Significa dar a locais esquecidos a tecnologia básica de monitoramento do tempo. É uma questão de justiça climática e sobrevivência.
Um exemplo positivo veio do Caribe. O estudo sobre o furacão Melissa reuniu cientistas da Jamaica, de Cuba e de países vizinhos. Essa colaboração massiva mostrou o caminho. Construir conexões fortes e duradouras com pesquisadores locais é fundamental. Só assim os estudos se tornam realmente úteis onde os impactos acontecem. A troca de conhecimento fortalece a capacidade de todos de entender e reagir aos novos extremos.
O caminho é longo e os desafios são imensos. Mas cada nova colaboração, cada estação meteorológica instalada, é um passo. A mudança climática é global, mas seus efeitos são locais e pessoais. Entendê-los em detalhes é o primeiro passo para proteger comunidades inteiras. A ciência, quando inclusiva, se torna uma ferramenta poderosa não só para explicar o mundo, mas para mudá-lo.
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