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Mudança climática deixa eventos mais extremos em 2025 e expõe desigualdade

Um evento climático extremo deixa marcas profundas. Pense em mais de cem vidas perdidas, um milhão de pessoas afetadas ou um estado de emergência declarado. Só neste ano que está terminando, o mundo registrou 157 desastres dessa magnitude. A ciência investigou 22 deles a fundo. Em 17 casos, a influência das mudanças climáticas foi clara e direta. Os outros cinco não trouxeram alívio para quem duvida do aquecimento global. Apenas faltaram dados para uma conclusão definitiva.

Esse cenário revela uma triste realidade. A desigualdade que vemos na sociedade também contamina a pesquisa científica. Comunidades mais vulneráveis são as que mais sofrem com as tragédias. E são justamente essas regiões que, muitas vezes, não possuem informações detalhadas para estudos precisos. É um ciclo difícil de quebrar. Cientistas de um consórcio internacional analisam como o clima alterado pelo homem intensifica esses eventos. Eles mostram que os limites para nos adaptarmos a um planeta mais quente e instável já estão sendo ultrapassados.

Mas será que o ano foi realmente tão ruim? A resposta, infelizmente, é um sim muito claro. Novos extremos surgem continuamente. Ciclones, ondas de calor, inundações, secas e incêndios florestais batem recordes. As temperaturas médias globais nunca estiveram tão altas. Os eventos recentes confirmam um aviso antigo. Estamos vivendo exatamente o clima que os especialistas previram há uma década, quando o Acordo de Paris foi assinado. A promessa de controle ainda não se tornou realidade.

O peso de um grau a mais

Desde 2015, o mundo aqueceu cerca de 0,3°C. Parece pouco, mas o impacto é enorme. No total, já estamos 1,3°C acima dos níveis pré-industriais. O principal motivo segue sendo a queima de combustíveis fósseis. Esse aumento aparentemente pequeno mudou a frequência do calor extremo. Em média, ganhamos 11 dias extras de calor intenso por ano. É como se o verão brasileiro chegasse mais cedo e fosse mais severo.

As metas climáticas atuais evitaram um futuro ainda mais assustador. Sem elas, caminhávamos para um aquecimento de 4°C. Agora, a projeção é de cerca de 2,6°C até o fim do século. É uma redução substancial, mas insuficiente. Um mundo nessa temperatura ainda seria perigosamente quente e cheio de surpresas desagradáveis. O limite de 1,5°C, considerado mais seguro, já foi ultrapassado na média dos últimos três anos.

Isso não é uma preocupação distante. É um problema do presente. Autoridades já discutem o “overshooting”, quando o planeta opera acima do limite ideal. A única saída seria remover gases de efeito estufa da atmosfera posteriormente. Uma tecnologia cara e ainda inviável em grande escala. Enquanto isso, os extremos se multiplicam. No Sudão do Sul, uma onda de calor que antes acontecia a cada 1.600 anos, agora pode se repetir a cada dois.

Dados que assustam e lacunas que preocupam

Os números de 2025 são eloquentes. Ondas de calor e inundações lideram a lista, com 49 eventos catastróficos cada. Tempestades fortes aparecem em seguida, com 38 registros. Incêndios florestais, secas e até ondas de frio intenso completam o quadro. Na Europa, um estudo detalhado mostrou o custo humano. Cerca de 24,4 mil pessoas morreram devido ao calor elevado entre junho e agosto. Isso em 854 cidades, onde vive 30% da população continental.

Alguns recordes chamam atenção pelo inusitado. No Quirguistão, na Ásia Central, os termômetros marcaram 30,8°C em março. Algo completamente fora do normal para a época. Uma onda de calor de cinco dias na região estava até 10°C mais quente do que os modelos previram para um mundo sem influência humana. Padrões parecidos foram vistos na Groenlândia e na Escandinávia. Eventos que antes eram improváveis, hoje se tornaram quase normais.

A falta de dados, porém, é um obstáculo enorme. Inundações, um dos itens mais observados, acumularam casos de estudos inconclusivos. Em abril, a cheia de um rio em Kinshasa matou 33 pessoas e destruiu estradas. Não foi possível atribuí-la claramente às mudanças climáticas. A capital do Congo tem quase nenhuma estação meteorológica. Muitas vezes, os modelos climáticos usados foram desenvolvidos para o Hemisfério Norte. Eles falham em capturar a realidade das chuvas extremas no Sul Global.

A ciência precisa ser de todos

Essa desigualdade dentro da própria ciência é um problema grave. Para estudar eventos em regiões desassistidas, os pesquisadores dependem de ferramentas inadequadas. Isso impede conclusões confiáveis e atrasa respostas. Investir em adaptação vai muito além de construir barreiras. Significa dar a locais esquecidos a tecnologia básica de monitoramento do tempo. É uma questão de justiça climática e sobrevivência.

Um exemplo positivo veio do Caribe. O estudo sobre o furacão Melissa reuniu cientistas da Jamaica, de Cuba e de países vizinhos. Essa colaboração massiva mostrou o caminho. Construir conexões fortes e duradouras com pesquisadores locais é fundamental. Só assim os estudos se tornam realmente úteis onde os impactos acontecem. A troca de conhecimento fortalece a capacidade de todos de entender e reagir aos novos extremos.

O caminho é longo e os desafios são imensos. Mas cada nova colaboração, cada estação meteorológica instalada, é um passo. A mudança climática é global, mas seus efeitos são locais e pessoais. Entendê-los em detalhes é o primeiro passo para proteger comunidades inteiras. A ciência, quando inclusiva, se torna uma ferramenta poderosa não só para explicar o mundo, mas para mudá-lo.

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