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MPF processa Globo em R$ 10 milhões por suposta pronúncia incorreta de palavra

Imagina só: você está assistindo ao seu jornal da noite, acompanhando os últimos resultados esportivos, e de repente uma ação judicial vira o foco. O assunto? A forma como os jornalistas da Globo pronunciam uma única palavra. Parece algo de outro mundo, mas é real. Um procurador do Ministério Público Federal em Minas Gerais entrou com um processo pedindo uma indenização milionária.

O valor chega a dez milhões de reais. O motivo alegado é que os profissionais da emissora estariam falando a palavra "recorde" de maneira errada. Em vez de dizer "reCORde", com o peso na sílaba do meio, estariam falando "REcorde", dando força à primeira parte. O procurador anexou até mesmo vídeos de programas como o Jornal Nacional como prova.

Essa história toda levanta uma discussão fascinante sobre a língua que usamos no dia a dia. Até que ponto um deslize de pronúncia, comum na fala de muitos brasileiros, justifica uma ação na Justiça? O caso vai além da mera correção e toca em como a televisão influencia nossos hábitos.

A regra por trás da polêmica

Para entender o ponto do procurador, precisamos voltar às aulas de português. Na nossa língua, as palavras têm uma sílaba tônica, aquela que falamos com mais força. A palavra "recorde" é classificada como paroxítona. Isso significa que a sílaba forte é a penúltima: "cor".

A pronúncia "REcorde" transforma a palavra em proparoxítona, com a força na antepenúltima sílaba. E aqui está a grande questão: no português, toda palavra proparoxítona leva acento gráfico. Veja exemplos como "lâmpada", "médico" ou "rápido". Se "recorde" fosse assim, teria um acento.

Como não tem, a pronúncia correta, segundo a norma culta, é realmente "reCORde". É uma regra sem exceções. O argumento central da ação é que uma emissora de grande alcance tem a responsabilidade de seguir e divulgar a forma padrão, ajudando a preservar o idioma.

Os pedidos em jogo

Além da indenização milionária, o processo faz um pedido curioso. Ele requer que a Globo veicule uma correção pública sobre a pronúncia da palavra em seus telejornais e programas esportivos. O procurador quer uma liminar para que isso seja feito rapidamente, quase como um "serviço de utilidade pública" linguístico.

O MPF confirmou que a ação foi protocolada, mas não deu mais detalhes. A emissora, por sua vez, foi notificada e informou que não comenta processos em andamento. O silêncio das partes deixa o desenrolar do caso nas mãos da Justiça, que terá de analisar os argumentos.

Há ainda outro ponto importante na ação. O procurador fala em uma possível lesão ao patrimônio cultural imaterial da língua portuguesa. É um conceito forte, que tenta colocar o erro de pronúncia como um dano à nossa herança cultural. Caberá aos juízes decidir se um hábito de fala comum pode ser enquadrado dessa forma.

O impacto no cotidiano

É inegável que a televisão, especialmente os noticiários de grande audiência, molda a maneira como falamos. Expressões e entonações dos apresentadores muitas vezes são assimiladas pelo público. Por isso, a preocupação com a forma correta vai além do pedantismo gramatical.

No entanto, a língua é viva e está sempre em transformação. Muitas pronúncias consideradas erradas no passado foram aceitas com o tempo pelo uso constante. O caso judicial coloca em choque a norma formal, registrada nos dicionários, e a realidade dinâmica da fala dos brasileiros.

Se a ação prosperar, pode criar um precedente interessante. Outras palavras com desvios de pronúncia frequentes na mídia poderiam ser alvo de questionamentos semelhantes. Por enquanto, resta acompanhar se os tribunais vão entrar nesse campo minado da fonética e do costume linguístico.

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