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MP da Bahia pede arquivamento do assassinato do ativista Binho do Quilombo

A família e a comunidade do Quilombo Pitanga dos Palmares, em Simões Filho, na Bahia, enfrentam mais um capítulo de dor e impunidade. O Ministério Público do estado pediu o arquivamento das investigações sobre a morte do ativista Flávio Pacífico dos Santos, o Binho do Quilombo. Ele foi assassinado a tiros dentro do próprio carro, no território quilombola, em setembro de 2017.

A decisão judicial ocorre em um contexto familiar profundamente marcado pela violência. Binho era filho da respeitada líder quilombola Mãe Bernadete, que também foi brutalmente assassinada seis anos depois, em 2023. Mãe e filho eram vozes ativas na resistência contra a instalação de um aterro de entulho próximo à comunidade.

O empreendimento é operado pela empresa Naturalle. As investigações policiais, no entanto, não conseguiram estabelecer uma ligação direta entre os dois crimes homicidas e a instalação desse aterro. Para o Ministério Público, as apurações se esgotaram sem encontrar indícios mínimos sobre a autoria do crime contra Binho.

A promotoria argumenta que a falta de elementos concretos impossibilita o oferecimento de uma denúncia à Justiça. O caso estava sob a responsabilidade da 7ª Promotoria de Justiça desde 2018. A decisão de pedir o arquivamento foi tomada após considerar todas as possibilidades investigativas já realizadas.

A família, porém, vive a angústia de sentir que pistas importantes não foram devidamente consideradas. Três meses após o crime, eles conseguiram e entregaram à polícia vídeos e fotos de um carro, com placa identificada, supostamente usado pelos assassinos. Esse material, segundo eles, não foi suficiente para levar o caso adiante.

A revolta e a decepção são sentimentos explícitos entre os parentes. Jurandir Pacífico, irmão de Binho e filho de Mãe Bernadete, questiona publicamente a decisão. Ele destaca a existência das imagens e demanda explicações claras sobre o motivo do arquivamento do inquérito.

O longo caminho por justiça

A situação se complica ainda mais com os desdobramentos do caso de Mãe Bernadete. O júri popular que julgará os acusados pelo assassinato da líder, marcado inicialmente para fevereiro, foi adiado para abril. A nova data traz mais ansiedade e a sensação de que a Justiça tarda a chegar.

Mãe Bernadete foi executada aos 72 anos, no mesmo quilombo onde o filho foi morto. Ela havia assumido publicamente a luta de Binho contra o aterro, que chamava de "maldito lixão". Dois anos antes do crime, ela foi incluída em um programa de proteção a defensores de direitos humanos.

O programa previa câmeras de segurança e escolta policial. No dia do assassinato, porém, a maioria das câmeras não funcionava e não havia policiamento no local. A líder foi atingida por 22 disparos, em um crime de extrema violência e crueldade.

Contextos e investigações paralelas

O Ministério Público da Bahia aponta que o assassinato de Mãe Bernadete está ligado a sua oposição à expansão do tráfico de drogas na região. Dois homens foram indiciados e responderão por homicídio qualificado. A empresa Naturalle, em nota anterior, lamentou as mortes e disse esperar que as autoridades elucidassem os crimes.

Para a família, os dois casos são faces da mesma moeda: a resistência pela terra e pelos direitos da comunidade. O adiamento do julgamento é visto como uma manobra para atrasar a prestação de contas à sociedade. Jurandir Pacífico descreve a sensação como um "soco no estômago".

A esperança agora se volta para o novo julgamento marcado. A comunidade aguarda que o mês de abril traga, enfim, um passo decisivo no longo caminho por verdade e justiça. A memória de Mãe Bernadete e de Binho segue viva, alimentando a luta do Quilombo Pitanga dos Palmares.

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