O presidente da Câmara, Hugo Motta, está movimentando a agenda do Legislativo com temas que tocam diretamente a vida do cidadão. A ideia é focar em propostas de apelo popular, especialmente num ano de eleições municipais. Dois assuntos ganham destaque imediato: a discussão sobre tarifa zero no transporte público e o fim da escala de trabalho conhecida como 6×1.
Essa mudança de rumo não é por acaso. A estratégia busca dar uma nova imagem à Câmara, deixando de lado debates mais espinhosos, como a reforma administrativa. A aproximação com pautas caras ao governo federal também é um movimento político perceptível. Tudo indica um esforço para criar uma sintonia em áreas que geram impacto no dia a dia das pessoas.
O objetivo parece claro: construir uma ponte com o eleitorado através de discussões concretas. Em vez de temas complexos e técnicos, a população pode ver a Casa discutindo o preço da passagem de ônibus e a rotina exaustiva de trabalho. São questões que qualquer um compreende e sente no bolso e no cansaço do corpo.
### Comissão especial vai debater a tarifa zero
A promessa de criar uma comissão para estudar a gratuidade no transporte público é um dos carros-chefes dessa nova fase. A proposta já é analisada por ministérios, mas esbarra num obstáculo enorme: o custo bilionário para bancar as passagens. O governo avalia que a implementação ainda neste mandato é difícil, dada a situação das contas públicas.
Como então financiar essa ideia? Uma das possibilidades em análise é transformar o vale-transporte. Em vez de o benefício ser pago diretamente ao trabalhador, as empresas fariam uma contribuição para um fundo único. Esse dinheiro custearia a gratuidade para toda a população. Outras fontes de recursos também entram no debate, como repasses da União, estados e municípios.
A comissão especial deve ser instalada logo após o Carnaval, conforme acertado com prefeitos e deputados. O grupo terá a missão complexa de encontrar modelos viáveis para tirar do papel uma proposta popular, porém cara. O debate sobre as fontes de financiamento será central, pois sem uma resposta clara para essa pergunta, o projeto não avança.
### Fim da escala 6×1 avança na Câmara
Outra prioridade anunciada é a Proposta de Emenda à Constituição que acaba com a escala 6×1. O tema, que estava parado há quase um ano, agora foi encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça. O próprio Motta, que antes criticava a proposta, fez uma defesa enfática, comparando-a à criação das leis trabalhistas.
A mudança de postura do presidente da Câmara é significativa e reflete a nova agenda. Ele argumenta que a PEC não é sobre trabalhar menos, mas sobre viver com mais qualidade. No entanto, o setor empresarial já manifestou preocupação com o aumento de custos que uma mudança por lei pode gerar, sem uma negociação prévia.
Entidades como a Confederação Nacional dos Transportes defendem que a redução da jornada seja tratada em acordos coletivos. O argumento é que muitos setores já adotam a escala 5×2 onde é possível, e que faltam trabalhadores para cobrir turnos. Apesar das resistências, a decisão de pautar o tema num ano eleitoral dificulta barrar sua tramitação.
A opção por uma PEC, no entanto, gera atritos. O governo federal preferiria um projeto de lei comum, que exige menos votos para ser aprovado e tem tramitação mais ágil. Lula e o ministro Guilherme Boulos querem conversar com Motta para tentar convencê-lo a mudar o rito. Enquanto isso, o setor privado se prepara para negociar, tentando minimizar os impactos da futura regra.
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