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Morte de El Mencho não muda atuação do cartel no Ceará, aponta investigação

A notícia sobre a morte de El Mencho, o suposto chefe máximo do Cartel Jalisco Nueva Generação, repercutiu em todo o mundo. Esse evento trouxe uma onda de incertezas para o cenário internacional do narcotráfico. No entanto, aqui no Brasil, especialmente no Ceará, especialistas que acompanham o caso têm uma visão mais específica.

A avaliação de investigadores federais é que uma mudança no comando não altera, pelo menos por agora, a engrenagem que já funciona no estado. A estrutura montada pelo grupo criminoso parece ser maior do que apenas um nome. A pergunta que fica é como essa organização se mantém ativa e qual o real impacto dessa notícia para a segurança pública local.

Para entender a situação, é preciso voltar um pouco no tempo. A presença do CJNG no Ceará ganhou contornos concretos em 2017. Naquele ano, a Polícia Federal prendeu, em uma área nobre da Grande Fortaleza, José González Valencia, o “Chepa”. Ele era apontado como o operador financeiro do cartel e um homem de extrema confiança do próprio El Mencho.

Chepa vivia no estado com uma identidade falsa, em uma clara estratégia de ocultação. Sua captura foi feita a pedido dos Estados Unidos, onde ele era acusado de tráfico internacional e lavagem de dinheiro. Após a prisão, ele passou pelo presídio de segurança máxima em Mossoró, no Rio Grande do Norte, até ser extraditado em 2021.

Esse episódio foi crucial porque acendeu um alerta definitivo. Ficou claro que o Ceará não era visto apenas como uma simples rota de passagem para drogas. O estado estava sendo utilizado como uma possível base para a articulação financeira do grupo, uma peça importante em seu tabuleiro logístico.

O modelo de negócios do CJNG é um dos segredos de sua resiliência. Diferente de organizações hierárquicas tradicionais, ele atua através de células autônomas e operadores locais. Essa descentralização significa que cada unidade pode funcionar de maneira quase independente. A queda de um chefe, por mais importante que seja, não paralisa necessariamente toda a máquina.

Essas células frequentemente utilizam empresas de fachada e “laranjas” para movimentar grandes quantias de dinheiro. A estratégia dificulta tremendamente o trabalho das autoridades, que precisam desvendar redes complexas e bem camufladas no mercado formal. O foco deles vai muito além do transporte de entorpecentes.

Outro ponto que chama a atenção é a capacidade de formar alianças. Relatórios de inteligência indicam que o CJNG estabeleceu pontes com facções brasileiras para viabilizar seus negócios. Essas parcerias podem abrir rotas de escoamento para drogas e, em sentido inverso, facilitar a entrada de armamentos no país.

Entre os grupos citados em investigações está o Primeiro Comando da Capital (PCC), que possui forte atuação interestadual e conexões internacionais consolidadas. Essa cooperação entre organizações criminosas de diferentes países transforma o combate ao tráfico em um desafio ainda mais complexo e sem fronteiras.

Diante desse cenário, forças de segurança estaduais e federais têm intensificado o monitoramento. A atenção se volta para movimentações financeiras atípicas e fluxos logísticos que fogem do padrão comum. O objetivo é identificar e cortar o fluxo de recursos que alimenta toda essa estrutura ilegal.

A leitura dos especialistas é bastante clara. O CJNG opera com um modelo empresarial sofisticado, projetado para sobreviver a mudanças e golpes. Por isso, mesmo eventos de grande magnitude, como a morte de seu líder histórico, não significam o fim imediato de suas operações em um território.

No Ceará, a verdadeira guerra do narcotráfico muitas vezes é silenciosa. Ela não se resume aos confrontos armados que chegam aos noticiários. A disputa real acontece no campo invisível do controle de rotas estratégicas, portos e, principalmente, do capital financeiro que move todo o sistema.

Nesse grande tabuleiro de xadrez internacional, o estado segue sendo uma peça cobiçada por sua posição geográfica. A permanência dessa ameaça exige vigilância constante e uma abordagem que vá além das apreensões, mirando o coração financeiro e logístico das organizações.

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