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Morre, aos 100 anos, Seu Paraíba, que servia o feijão maravilha como tira-gosto

Se você passou pelas redondezas do Otávio Bonfim, em Fortaleza, certamente ouviu falar de um lugar especial. Era uma bodega simples, onde o cheiro de feijão cozido se misturava ao vai e vem da rua. O dono, conhecido por todos como Seu Paraíba, era uma figura tão marcante quanto o tempero da sua panela. Sua história se confunde com a da própria cidade, construída em décadas de atendimento direto e sem frescuras.

O cardápio era uma atração à parte, com pratos que aqueciam o corpo e a alma. Corredor, mocotó e o famoso feijão carregado de toucinho e temperos faziam a fama do local. A regra de ouro era clara: o feijão saía de graça para quem consumisse uma dose de cana ou outra bebida. Era um sistema de troca honesto, que mantinha a roda girando e os clientes sempre satisfeitos.

O dia a dia na bodega era uma dança de perguntas e respostas. Alguém sempre gritava: “Tem colorau, sal, pimenta?”. E a resposta, invariavelmente, vinha: “Tem sim!”. Nada faltava naquele balcão. Mas Seu Paraíba, como qualquer bom comerciante, tinha seus momentos de mau humor. Era parte do seu charme e da autenticidade do lugar.

Um atendimento que virou lenda

A personalidade forte do dono virou caso de folclore urbano. Um cliente chegava e perguntava: “Tem o feijão?”. Ele, num dia mais arisco, respondia secamente: “Não!”. O freguês, já conhecendo o jogo, insistia: “Pois vou tomar uma?”. A réplica era imediata: “Não tem”. Essa dinâmica peculiar afastava os curiosos, mas os clientes de verdade entendiam perfeitamente aquele ritual.

Era assim que ele filtravas quem só queria provar e quem realmente apreciava o ambiente. Para os habitués, aquele jeito brusco era só uma casca. Por trás dela, havia um homem de palavra, que nunca deixou ninguém com fome ou sede. Sua bodega era um ponto de encontro, onde as conversas fluíam tão livremente quanto a bebida.

Essa forma única de lidar com o público solidificou sua reputação. O “feijão maravilha”, como era chamado, não era apenas uma comida. Era a experiência completa oferecida por um homem que não seguia manuais de atendimento ao cliente. Ele criou suas próprias regras e, com elas, conquistou o respeito de toda uma comunidade.

O fim de um ciclo histórico

Há algo profundamente simbólico na partida de Seu Paraíba. Ele faleceu dormindo, na madrugada do dia 2 de fevereiro, data em que completaria cem anos de vida. Morreu cheio de energia, como quem encerra uma missão longa e bem cumprida. Sua loja, localizada na Rua Dom Jerônimo, 256, permanece como testemunha silenciosa de uma era.

O velório ocorreu na funerária Jerusalém, no centro da cidade, encerrando-se na manhã do dia seguinte. A despedida foi concorrida, marcada por histórias e saudações de quem conviveu com ele. Marcílio Menezes, filho de outro comerciante tradicional da área, Zé Maurício, resumiu o sentimento geral.

Para ele, a morte de Seu Paraíba representa o fim do ciclo de um verdadeiro personagem histórico de Fortaleza. Uma figura que será eternizada não em monumentos de pedra, mas na memória afetiva das pessoas. Sua bodega era mais que um comércio; era um pedaço vivo da cultura e da identidade do bairro, que agora guarda sua lembrança.

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