A licitação de uma nova linha de metrô em São Paulo tomou um rumo inesperado. O consórcio que parecia ter vencido o leilão foi desclassificado de última hora. A decisão joga um novo capítulo de incerteza sobre um projeto crucial para a mobilidade na região de Guarulhos.
A linha 19-Celeste promete melhorar a vida de milhares de pessoas. Ela vai conectar o Aeroporto de Guarulhos a outras linhas de trem, com cinco estações e túneis. O investimento previsto é de bilhões de reais, uma obra de grande complexidade e impacto.
Por isso, a escolha da empresa construtora segue regras rígidas. O edital exige experiência comprovada em obras específicas. A falta de um documento crucial foi o motivo que derrubou a proposta vencedora. A história revela como detalhes técnicos podem mudar completamente o jogo.
O que levou à desclassificação
O consórcio Nove de Julho havia apresentado a proposta de menor valor, cerca de R$ 4,9 bilhões. Isso deu a ele a vantagem inicial no leilão realizado em setembro. No entanto, o segundo colocado entrou com um recurso questionando a habilitação técnica do grupo.
O ponto central era um atestado de experiência com uma máquina específica. O método de perfuração, conhecido como TBM, é essencial para escavar túneis em áreas urbanas sem causar grandes transtornos. O edital pedia experiência em obra urbana com pelo menos dois quilômetros e meio.
O documento apresentado pelo consórcio, porém, veio de uma obra em zona rural. A área técnica do Metrô revisou a análise e concordou com o recurso. Eles entenderam que o atestado não cumpria o requisito formal do edital. Com isso, a proposta mais barata foi considerada inelegível.
A corrida contra o tempo de uma empresa
A chave do problema estava com uma das empresas do consórcio. A Highland Build, uma chinesa com participação minoritária, era a única do grupo a ter o atestado TBM. Sem ela, o consórcio não poderia vencer. Acontece que sua chegada ao Brasil foi uma verdadeira corrida.
A empresa só obteve autorização para funcionar no país onze dias antes do leilão. Ela participou da disputa sem um CNPJ ativo, uma situação permitida, mas incomum. O registro definitivo saiu apenas um dia depois do início do certame. Tudo foi muito rápido.
A matriz na China aprovou a abertura da filial brasileira em agosto. A decisão veio pouco depois de o governo paulista adiar o leilão pela terceira vez. Os documentos mostram que o objetivo era claro: permitir que a empresa entrasse em licitações públicas no Brasil, sozinha ou em consórcio.
Os bastidores de um consórcio internacional
O grupo Nove de Julho é liderado por outra gigante chinesa, a Yellow River. A brasileira Mendes Júnior também faz parte da sociedade. As duas empresas chinesas têm uma ligação curiosa: ambas são controladas pela mesma estatal da China, a Power China.
No Brasil, as duas funcionam no mesmo endereço, um prédio comercial em São Paulo. Mas os processos de abertura foram bem diferentes. A Yellow River levou cerca de cinco meses para se estabelecer oficialmente no país, um trâmite mais comum.
A Highland Build fez todo o caminho de forma acelerada, em poucas semanas. A justificativa foi a “necessidade” de se estabelecer para cumprir exigências locais. Para o Metrô, no entanto, a experiência comprovada no papel não se encaixou nas regras do jogo.
A licitação será reaberta para análise das outras propostas. Enquanto isso, o consórcio desclassificado anunciou que vai recorrer da decisão nas esferas administrativa e judicial. Eles defendem sua qualificação e a experiência mundial de suas empresas.
O projeto da linha celeste segue aguardando o desfecho desse imbróglio. A população de Guarulhos continua na expectativa de ver sair do papel uma obra que pode transformar o deslocamento na região. A lição que fica é que, em licitações bilionárias, cada detalhe da documentação é revisto com lupa.
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