Você sempre atualizado

Mesmo com queda, Brasil é o país que mais mata trans e travestis

Infelizmente, o Brasil mantém um triste recorde. Pelo décimo oitavo ano consecutivo, nosso país lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas transexuais e travestis. Os números de 2025, divulgados esta semana, mostram 80 mortes violentas registradas. Apesar de representar uma queda em relação a 2024, essa realidade não tira o país do topo dessa lista sombria.

A informação vem de um monitoramento minucioso feito pela sociedade civil. A Associação Nacional de Travestis e Transexuais compila os dados diariamente a partir de notícias e denúncias. Esse trabalho revela uma triste verdade: sem essa vigilância, muitas dessas vidas perdidas simplesmente desapareceriam das estatísticas oficiais. É um esforço crucial para dar visibilidade a uma tragédia que muitas vezes é ignorada.

A queda numérica não significa, necessariamente, um cenário menos violento. O próprio relatório aponta um aumento nas tentativas de homicídio. Isso indica que a violência não regrediu, apenas mudou sua forma final em alguns casos. A sensação de insegurança permanece altíssima para a população trans, que vive sob constante ameaça.

A geografia da violência

Observando o mapa dos assassinatos, a violência se concentra com força na Região Nordeste, com 38 registros. Em seguida vem o Sudeste, com 17 casos. Os estados do Ceará e Minas Gerais aparecem com os números mais altos este ano, cada um com oito mortes. A violência, no entanto, não é um fenômeno novo e se espalha por todo o território nacional.

Em uma análise de longo prazo, de 2017 a 2025, São Paulo emerge como o estado mais letal, com 155 assassinatos acumulados. O perfil das vítimas é majoritariamente de travestis e mulheres trans, jovens e negras. A faixa etária entre 18 e 35 anos é a mais atingida, mostrando como a violência interrompe vidas em seu momento mais produtivo.

Esses números não surgem do nada. Eles são explicados por uma combinação perversa de fatores. A subnotificação, o descrédito nas instituições e a falta de políticas públicas específicas criam um terreno fértil para a impunidade. A transfobia se manifesta como uma violência estrutural, que vai muito além de casos isolados.

Um retrato mais amplo

Quando ampliamos o foco para toda a comunidade LGBT+, o quadro continua grave. Outro levantamento recente documentou 257 mortes violentas em 2025, incluindo homicídios e suicídios. Isso significa uma vida perdida a cada 34 horas no Brasil. Apesar de uma redução percentual, a escala ainda é assustadora e mantém o país no topo desse triste ranking mundial.

Esses dados reforçam que a violência é um problema social complexo e enraizado. O preconceito não atinge apenas uma letra da sigla, mas toda uma comunidade diversa. A intersecção com o racismo também é evidente, mostrando como as discriminações se somam e potencializam os riscos para pessoas negras e pardas.

O caminho para mudar essa realidade exige ações concretas. Os relatórios não servem apenas para constranger o Estado, mas para informar a sociedade e guiar políticas públicas. É preciso garantir que os mecanismos de proteção já existentes, como aqueles destinados às mulheres, sejam acessíveis e aplicados também às mulheres trans.

A implementação prática das leis e a criação de políticas específicas são urgentes. Falta ação decisiva por parte de quem pode tomar as decisões. Enquanto isso, a sociedade civil segue fazendo o trabalho de não deixar que essas vidas e histórias caiam no esquecimento, na esperança de que os números do próximo relatório contem uma história diferente.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.