Oito anos se passaram desde aquele 14 de março que chocou o Brasil. A dor da perda de Marielle Franco e Anderson Gomes não diminuiu, mas o cenário ao redor da sua luta por justiça mudou. A pergunta que agora nos acompanha é diferente. Com os executores e mandantes já condenados pela Justiça, para onde segue o legado político que Marielle deixou?
A família e as pessoas mais próximas reforçam que a condenação penal, embora fundamental, não é o ponto final. Para Luyara Franco, filha de Marielle, justiça completa seria ter sua mãe e Anderson vivos. Ela foi eleita por milhares de pessoas, e discordar de uma vereadora à base da bala é um ataque brutal à democracia. Ver a responsabilização acontecer traz um certo alívio, mas o vazio permanece.
Esse novo momento transforma a data. O 14 de março deixa de ser marcado apenas pela paralisia da impunidade. Agora, a energia se volta para a disputa pela memória, pela continuidade das suas lutas e pela garantia de que um crime assim nunca mais se repita. A conversa evoluiu do "porquê" para o "como" seguir em frente.
O longo caminho até a condenação
As condenações judiciais foram conquistadas passo a passo. Em outubro de 2024, Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, os executores, foram condenados pelo assassinato e pela tentativa contra a assessora Fernanda Chaves. O veredicto sobre os mandantes veio em fevereiro de 2026, pelo Supremo Tribunal Federal.
Domingos Brazão e Chiquinho Brazão receberam penas superiores a setenta anos cada. Rivaldo Barbosa, ex-chefe da polícia civil, foi condenado por obstruir a investigação. Outros envolvidos também tiveram suas sentenças. O processo judicial desenhou, com provas, uma trama que ia muito além de um homicídio comum.
Desde a primeira hora, familiares e movimentos sociais afirmaram se tratar de um crime político. A lentidão nas investigações e as revelações sobre ligações entre milícia e agentes públicos só fortaleceram essa tese. A condenação no STF confirmou judicialmente o que a sociedade já sabia: foi uma execução para silenciar uma voz.
Memória viva e sementes para o futuro
Se antes o dia 14 era centrado na cobrança por respostas, hoje a programação reflete uma nova etapa. A data inclui uma missa, uma entrevista coletiva da família e eventos culturais abertos ao público. A exposição "Mulher Raça: O Legado de Marielle Franco" e o festival no Circo Voador são partes centrais.
Essas iniciativas não são apenas homenagens. Elas buscam apresentar Marielle além do símbolo de uma ausência. Querem mostrar sua trajetória concreta, suas bandeiras e seu método de trabalho. É um esforço para manter sua história viva e falar com as novas gerações, usando linguagens que ressoem com elas.
O Instituto Marielle Franco atua justamente nessa frente. Seu trabalho se organiza em pilares como justiça, memória e a formação de novas lideranças. Eles mantêm viva a trajetória da vereadora, apoiam familiares de outras vítimas e conectam mulheres negras, LGBT+ e periféricas para ocuparem espaços públicos.
O desafio de ocupar espaços com segurança
Falar do futuro de Marielle é, inevitavelmente, discutir as condições para que outras mulheres negras possam entrar e permanecer na política. Sua morte escancarou a violência política de gênero e raça, uma ferramenta de intimidação que tenta manter os espaços de poder restritos.
A escolha de Marielle como alvo não foi aleatória. Foi um ataque a um corpo considerado descartável por uma estrutura racista e machista. Esse tipo de violência manda uma mensagem clara para todas as mulheres, especialmente as negras, de que certos lugares não são para elas.
Os números mostram que o risco é real. Após a criminalização da violência política de gênero, o Ministério Público Federal registrou mais de cem casos em pouco mais de um ano. A persistência das ameaças explica por que a entrada de mulheres negras na política ainda é vivida como um ato de coragem e risco.
Uma luta dentro de um contexto mais amplo
A discussão sobre esse legado acontece em um Brasil onde a violência contra as mulheres não para de crescer. Os feminicídios aumentaram, e a maioria das vítimas são mulheres negras. Esses dados não descrevem o mesmo crime, mas situam a morte de Marielle em um terreno comum.
Ela foi vítima de um feminicídio político. Um crime que mistura ódio de gênero, racismo e a tentativa de controlar quem pode ocupar o poder. Sua história está ligada à exclusão persistente de mulheres, negros e LGBTs dos principais espaços de decisão do país.
O caminho que se abre agora é o de transformar sua memória em ação. É garantir que mais mulheres possam se candidatar, exercer mandatos e propor políticas públicas sem medo. A justiça pelo crime foi um marco necessário, mas a justiça plena pelo seu legado está apenas começando.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.