O clima político em Brasília segue intenso conforme o governo se aproxima de seu último ano. Diferente do estilo de confronto adotado no início do mandato anterior, a estratégia atual parece ser outra. O presidente Lula tem apostado na força da opinião pública para influenciar o Congresso e aprovar seus projetos.
Esse método ganhará um novo capítulo nesta quinta-feira, com uma cerimônia que marca os três anos dos ataques aos prédios dos Três Poderes. A solenidade acontece dentro do Palácio do Planalto, com militantes reunidos do lado de fora. O ato defende a democracia e carrega um lema direto: sem anistia para golpistas.
A expectativa é que o presidente desça a rampa para se encontrar com os manifestantes ao final do evento. Esse cenário também pode ser usado para anunciar o veto a um projeto de lei que reduz penas de envolvidos nos ataques de janeiro de 2023. A sanção do texto, como está, beneficiaria diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A pressão popular como estratégia
Para além dos atos simbólicos, a mobilização da sociedade se tornou uma ferramenta crucial. Líderes do governo avaliam que foi o elemento mais definidor para a governabilidade no ano passado. A ideia é repetir a dose em 2026, usando a força do eleitorado para pressionar os parlamentares.
A agenda do último ano do mandato é repleta de temas complexos. Propostas sobre segurança pública, inteligência artificial e regulação digital estão na fila. Há também itens considerados mais palatáveis, como a ampliação do vale-gás, uma aposta eleitoral do governo.
Nos últimos meses, o discurso se acirrou. Campanhas ligadas ao PT chegaram a classificar o Congresso como inimigo do povo. Esse tom ganhou força após derrotas legislativas, como a derrubada de um decreto que aumentava o IOF. A mesma tática ajudou a viabilizar a taxação de rendas altas, uma compensação pela isenção dada aos que ganham até dois salários mínimos.
Os altos e baixos no Congresso
A relação com a Câmara dos Deputados viveu momentos de grande tensão. A aprovação da chamada PEC da Blindagem, que dificultava processos contra parlamentares, gerou uma reação forte. Atos de rua se multiplicaram e a esquerda direcionou críticas ao presidente da Casa, Hugo Motta.
O tom subiu ainda mais quando Motta escolheu um aliado do governador de São Paulo para relatar um projeto do governo sobre segurança. O líder do PT na Câmara chegou a sugerir que Motta perdia as condições para presidir o plenário. O clima só amenizou após uma reunião particular entre os dois, antes do recesso parlamentar.
A expectativa é que, em 2026, o presidente da Câmara atue de forma mais alinhada. O objetivo seria conseguir o apoio de Lula para a eleição de seu pai ao Senado pela Paraíba. Mesmo com essa perspectiva, a relação segue marcada por desconfiança mútua.
Acordos e comparações de estratégia
Apesar dos embates, o governo segue costurando acordos práticos. Na reta final do ano, liberou o pagamento de emendas parlamentares para garantir votos cruciais. A medida aprovou aumentos de impostos sobre apostas online e fintechs, essenciais para o orçamento.
Houve também uma reaproximação com o União Brasil, partido que havia retirado seus ministros após desentendimentos. Lula trocou o ministro do Turismo por um nome indicado por deputados governistas da sigla, em um movimento apoiado pelo próprio Hugo Motta.
A trajetória contrasta com a do governo anterior. Bolsonaro iniciou seu mandato rejeitando apoios políticos, mas depois fechou uma ampla aliança com o centrão. Essa coalizão permitiu a aprovação de um pacote robusto de benefícios no ano eleitoral, como cortes de impostos e ampliação de auxílios.
Analistas ponderam que Bolsonaro conquistou apoio ao terceirizar parte do Orçamento para o Congresso. Lula, por outro lado, foi eleito com minoria em um Legislativo muito afeito às emendas. Seu governo consegue aprovar algumas pautas econômicas importantes, mas com notável dificuldade e algumas derrotas expressivas.
Enquanto o antecessor elegeu o Congresso como seu principal aliado, a atual gestão tem buscado apoio em outras frentes. O Supremo Tribunal Federal acabou assumindo um papel de maior destaque nesse tabuleiro político. O caminho até o fim do mandato promete ser intenso, com a pressão popular e os acordos de bastidores ditando o ritmo.
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