Você consegue imaginar o que é possível fazer com um trator de esteira? Essas máquinas gigantescas, capazes de derrubar árvores e abrir caminhos na mata densa, têm um papel central em um problema crescente na Amazônia. Nos últimos anos, uma quantidade surpreendente delas chegou à região, financiada com dinheiro público. O destino desse maquinário e seu uso real abrem uma discussão urgente sobre o destino da floresta.
O estado que mais recebeu esses equipamentos foi Rondônia. De 2015 para cá, foram mais de 500 máquinas, como tratores e escavadeiras, compradas com cerca de 319 milhões de reais em verbas parlamentares. Em proporção ao seu tamanho, Rondônia também é o líder em desmatamento na Amazônia. Não é difícil conectar os pontos: onde há mais máquinas pesadas, a floresta parece recuar mais rápido.
Essa distribuição não se limitou a Rondônia. Tocantins e Mato Grosso aparecem em seguida no ranking, com centenas de unidades financiadas da mesma forma. Embora tecnicamente possam ser usadas para obras legais, a realidade mostra um caminho diferente. Na prática, a chegada massiva desses equipamentos em áreas florestais costuma preceder a abertura de estradas irregulares, a instalação de garimpos e o desmate ilegal.
### O caminho do dinheiro e das máquinas
Tudo isso foi possível por uma mudança nas regras do orçamento público. A partir de 2015, as chamadas emendas parlamentares, pedidas por deputados e senadores, passaram a ter pagamento obrigatório pelo governo federal. Isso deu um poder imenso aos congressistas sobre onde aplicar o dinheiro. Na última década, mais de 900 milhões de reais foram direcionados apenas para a compra de máquinas pesadas para a Amazônia Legal.
O principal canal para esse fluxo em Rondônia foi um programa chamado Calha Norte. Criado décadas atrás para ações estratégicas das Forças Armadas nas fronteiras, ele foi completamente transformado. Tornou-se uma via preferencial para deputados e senadores enviarem recursos para suas bases. Só por esse programa, Rondônia recebeu 402 equipamentos. A capital, Porto Velho, foi a grande beneficiária, ficando com a maior parte.
Outro ator fundamental nesse jogo é a Codevasf, uma estatal que antes atuava em projetos de irrigação no Nordeste. Com uma injeção bilionária de emendas, ela mudou de função. Passou a atuar em estados amazônicos, como Tocantins e Pará, entregando obras de pavimentação e, claro, máquinas. Esse novo perfil da empresa se manteve ao longo de diferentes governos, sempre sob forte influência política.
### A conexão direta com a destruição
Especialistas deixam claro: não há coincidência. O trator de esteira, por exemplo, tem como função primordial a remoção de vegetação. Ele é a ferramenta ideal para desmatar e abrir estradas. Quando esses equipamentos chegam em grande número a regiões de floresta, o risco de uso ilegal dispara. E os números do desmatamento confirmam essa lógica.
Porto Velho, que recebeu centenas de máquinas, está entre os três municípios que mais desmataram no país nos últimos anos. Autoridades ambientais já veem esse maquinário como um instrumento do crime. Da mesma forma que uma arma pode ser usada em um assalto, essas máquinas se tornam ferramentas para crimes ambientais, como o desmate e a extração ilegal de madeira.
Casos concretos ilustram o problema. Recentemente, um deputado federal usou suas emendas para tentar regularizar uma estrada que havia sido aberta com desmatamento ilegal quando ele mesmo era prefeito. A obra beneficiou propriedades de sua família e invadiu até uma terra indígena. O caso foi parar no Supremo Tribunal Federal, que determinou a abertura de uma investigação pela Polícia Federal.
A situação expõe um ciclo perverso. Recursos públicos, destinados por parlamentares, compram máquinas que, em vez de promover o desenvolvimento, frequentemente aceleram a destruição da floresta. O controle sobre o uso final desses equipamentos parece frágil, quando existe. Enquanto isso, a Amazônia continua perdendo pedaços de seu território, muitas vezes com a ajuda indireta do dinheiro que deveria servir à população.
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