Um curso de Medicina em Santa Catarina recebeu milhões em bolsas do governo estadual, mas teve um desempenho considerado muito baixo em uma avaliação nacional. A situação levanta questões sobre o uso de recursos públicos e a qualidade da formação oferecida aos futuros médicos.
O Enamed é um exame aplicado pelo Ministério da Educação para avaliar a qualidade dos cursos de Medicina no país. Os resultados são importantes porque mostram se os estudantes estão saindo preparados para atender a população no Sistema Único de Saúde. Um desempenho ruim pode significar riscos para a saúde pública.
Em Santa Catarina, dois cursos tiraram a nota mais baixa nessa avaliação. Um deles é o curso da Universidade do Contestado, na cidade de Mafra. Apenas 15 dos 43 formandos foram considerados proficientes, que é o nível mínimo esperado para um médico recém-formado. Esse resultado é preocupante.
Investimento alto em meio a resultados baixos
Apesar da nota 1, esse curso recebeu cerca de 17,4 milhões de reais em bolsas do programa Universidade Gratuita desde 2023. Esse valor é muito expressivo. Para se ter uma ideia, ele é o dobro do custo de construção de uma escola de ensino básico inaugurada recentemente no estado.
O programa estadual paga a mensalidade integral dos estudantes. Em alguns casos, os valores ultrapassavam 15 mil reais por mês para um único aluno. Com o valor de uma única mensalidade, seria possível custear 25 bolsas para estudantes vulneráveis do ensino médio, um programa que foi descontinuado.
Ao todo, os três cursos de Medicina da UnC receberam mais de 36 milhões de reais do mesmo programa. Os dados mostram um contraste forte entre o volume de recursos investidos e o retorno em qualidade de ensino demonstrado pela avaliação federal.
Problemas na distribuição das bolsas
O programa Universidade Gratuita ganhou notoriedade depois que um estudo do Tribunal de Contas do Estado encontrou falhas graves. Alunos com patrimônio milionário, incluindo donos de carros importados e jetskis, estavam recebendo bolsas integrais pagas com dinheiro público.
Isso acontecia porque o programa inicial não tinha um limite de patrimônio para o estudante. Ele permitia o benefício para famílias com renda de até oito salários mínimos por pessoa, uma faixa que pode incluir pessoas com alto poder aquisitivo. Diante das falhas, o governo posteriormente estabeleceu um teto patrimonial de 1,5 milhão de reais.
A auditoria também encontrou indícios de renda incompatível em 231 casos de alunos de Medicina. O relatório destacou que o curso concentrava a maior quantidade de alunos com patrimônio familiar superior a um milhão de reais. Havia uma preocupação clara com a fiscalização desses recursos.
A expansão acelerada e a qualidade do ensino
Além do campus de Mafra, a Universidade do Contestado tem outros dois cursos de Medicina em cidades diferentes. Eles também são financiados pelo programa estadual. Esses cursos compartilham a mesma grade curricular e corpo docente, uma prática que levanta questões sobre a estrutura oferecida.
O Conselho Federal de Medicina comentou que os resultados do Enamed revelam um problema nacional. A expansão muito rápida de vagas, especialmente na rede privada, não vem sendo acompanhada de critérios mínimos de qualidade. É essencial ter infraestrutura e campos de prática adequados para formar bons profissionais.
A autorização para esses novos cursos veio do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina. Na época, o órgão era presidido por uma pessoa que, mais tarde, recebeu o título de doutor honoris causa da própria UnC. O governador Jorginho Mello também recebeu a mesma honraria da universidade em 2025.
As regras do programa e a contrapartida
Por lei, os estudantes beneficiados pelas bolsas integrais têm uma contrapartida. Eles devem trabalhar voluntariamente por até 480 horas, prestando serviços à população catarinense. Esse trabalho deve ser realizado após a formatura, em um prazo de até dois anos, e dentro do território do estado.
A legislação também prevê que cursos com conceito inferior a 3 no sistema do MEC podem ter as bolsas suspensas. No entanto, não há uma regra específica para o Enamed, que é uma avaliação nova. A incerteza sobre como essa nota baixa afetará o programa permanece.
Enquanto isso, os gastos com bolsas para cursos de Medicina só aumentam. Só em 2025, o estado destinou quase 268 milhões de reais para essa área. O montante total aplicado nesses cursos desde 2023 supera o orçamento federal para modernização de universidades públicas em 2026.
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