Uma nova maneira de organizar os alunos dentro da escola pública está sendo testada em São Paulo. O projeto separa estudantes da mesma série em turmas diferentes, baseando-se apenas no desempenho que tiveram em provas anteriores. A ideia gera debate entre especialistas e já causa preocupação entre famílias e professores no início do ano letivo.
A iniciativa, chamada Projeto Voar, começou a funcionar em 147 escolas estaduais, envolvendo turmas do 6º ao 9º ano. Em vez da mistura tradicional, as classes são divididas em "padrão" e "adaptada". A primeira reúne alunos com menor defasagem, enquanto a segunda fica com aqueles que apresentam médio ou alto atraso no aprendizado.
A secretaria estadual de Educação defende a medida. Segundo a gestão, o objetivo é personalizar o ensino e acelerar a recuperação dos estudantes com mais dificuldades. A proposta é que, com turmas mais niveladas, o professor consiga ajustar melhor o ritmo das explicações e atividades para cada grupo.
No entanto, um ponto crucial tem sido alvo de questionamentos: a comunicação. Muitos pais e responsáveis afirmam que não foram avisados sobre a participação da escola de seus filhos no projeto-piloto. Eles só perceberam a mudança quando as turmas foram formadas, o que gerou surpresa e desconforto.
Os alunos também notaram a diferença. Apesar de as escolas terem recebido orientação para usar nomes aleatórios nas turmas (como A, B, C) sem associar à classificação, os jovens rapidamente perceberam a lógica por trás da divisão. Em alguns casos, mães foram à direção questionar por que seu filho estava em determinada classe.
Para os professores, a situação também chegou de forma abrupta. Em algumas unidades, os educadores só tomaram conhecimento da nova organização dois dias antes do início das aulas. A portaria oficial do projeto foi publicada no Diário Oficial apenas depois que o ano letivo já havia começado.
Como funciona a divisão das turmas
A separação dos estudantes foi feita com base nas notas de língua portuguesa e matemática no Saresp, a avaliação estadual. Os que tiveram desempenho considerado "abaixo do básico" foram direcionados para as turmas adaptadas. Os dados revelam que a maioria das classes criadas se encaixa nesse perfil.
Segundo a secretaria, das mais de 1.400 turmas de 7º a 9º ano nas escolas piloto, cerca de 74% são do tipo adaptada. Isso significa que a grande maioria dos alunos nessas séries foi enquadrada como com rendimento abaixo do esperado. O conteúdo ensinado será o mesmo para todos, mas o ritmo será diferente.
Nas turmas adaptadas, o professor pode explicar com mais calma, retomar conceitos de anos anteriores e garantir a base. Já nas turmas padrão, o andamento segue ou até ultrapassa o esperado para a série. A ideia é que ninguém fique para trás nem se siente desestimulado por achar a aula lenta demais.
Os riscos apontados por especialistas
Apesar de ser apresentado como novidade, separar alunos por desempenho é uma prática antiga no Brasil, comum nas décadas de 1980 e 1990. A maioria das redes de ensino abandonou esse modelo com o tempo. Estudos e especialistas apontam efeitos colaterais sérios que podem surgir com essa divisão.
Entre os principais riscos está o impacto na autoestima dos estudantes. Ser colocado em uma turma considerada "dos que têm dificuldade" pode estigmatizar o aluno e fazê-lo acreditar que é menos capaz. Isso pode aumentar casos de indisciplina e, em situações mais graves, levar até ao abandono da escola.
Outro ponto crítico é a redução da convivência com a diversidade. Especialistas defendem que a heterogeneidade em sala de aula é positiva. O contato entre alunos com diferentes habilidades e ritmos promove colaboração e enriquece o aprendizado de todos. A segregação pode limitar essas trocas importantes.
A visão dos professores e a defesa do governo
Na ponta, os educadores lidam diretamente com os desafios da mudança. Alguns professores ouvidos pela reportagem, que pediram anonimato, disseram que a separação seria desnecessária se houvesse mais autonomia em sala. Eles criticam a padronização rígida de aulas com slides e cronogramas únicos impostos pela rede.
Eles argumentam que, com liberdade para adaptar o conteúdo, poderiam atender a todos dentro de uma mesma turma. A atual política, para eles, cria um problema de padronização e depois oferece uma solução que é justamente segregar os alunos, em vez de empoderar o professor para lidar com as diferenças.
O subsecretário pedagógico da secretaria, Daniel Barros, nega que o projeto crie estigmatização. Ele argumenta que os alunos com defasagem já sofrem por não acompanhar o ritmo da turma mista tradicional. A proposta, segundo ele, é justamente restaurar a confiança desses estudantes ao permitir que eles aprendam no passo certo.
Sobre a falta de aviso às famílias, Barros afirmou que a organização das turmas é uma decisão pedagógica da escola, que não exigiria consentimento prévio. O projeto será monitorado por uma organização civil e por uma equipe ligada a Harvard. Os resultados serão analisados por um ano e, se não forem positivos, a iniciativa pode ser interrompida em 2027.
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