Os números da segurança pública em São Paulo em 2025 pintam um cenário complexo. Apesar de um discurso focado em enfrentamento, os dados mostram desafios persistentes. A violência policial e os crimes contra a população seguem como questões urgentes que demandam atenção.
Neste ano, as polícias Civil e Militar do estado registraram 649 mortes em decorrência de intervenção policial até outubro. Esse número já supera o total de todo o ano de 2023. Comparado ao mesmo período do ano anterior, a redução foi mínima, inferior a 4%. A situação preocupa especialistas.
O contexto é importante. Em 2024, operações de grande porte na Baixada Santista inflaram os números. Em 2025, mesmo sem ações desse tipo, a letalidade se manteve alta. Isso indica que o problema pode ser mais estrutural, relacionado ao modelo de policiamento adotado no estado.
Letalidade policial em foco
Para o ouvidor das polícias, Mauro Caseri, a proximidade com os índices de 2024 é um sinal alarmante. A expectativa era de uma queda mais significativa. O fato de isso não ter ocorrido, mesmo sem megaoperações, revela uma rotina de confrontos com desfecho fatal. É um padrão que se mantém.
Os crimes violentos contra a vida também tiveram aumento. Os homicídios culposos, por exemplo, subiram quase 40%. Lesões corporais seguidas de morte e tentativas de homicídio também cresceram. Os dados oficiais mostram que a violência não dá trégua.
Os casos de violência sexual contra mulheres seguem em níveis altíssimos. Até outubro, foram registrados mais de 12 mil casos de estupro e estupro de vulnerável. O número se mantém estável e assustadoramente alto na comparação com os anos anteriores. É um dado que exige políticas específicas e eficazes.
O recuo nas câmeras corporais
Especialistas relacionam a letalidade policial persistente a mudanças na política de câmeras. O programa Olho Vivo, iniciado em 2020, mostrou sucesso inicial na redução de mortes. Agora, seu desmonte preocupa. O governo estadual alterou as regras e trocou o fornecedor dos equipamentos.
A obrigatoriedade da gravação contínua foi flexibilizada. O discurso oficial agora enfatiza que as câmeras servem para auxiliar o policial, não para fiscalizá-lo. O convênio com a empresa Axon, cujos equipamentos gravavam ininterruptamente, foi encerrado. Novos aparelhos da Motorola, acionados remotamente, estão sendo adquiridos.
A promessa de instalar 15 mil câmeras até 2026 parece distante. Até setembro, pouco mais de 10 mil estavam em uso. Mesmo se cumprida, a meta é considerada insuficiente por especialistas e pelo próprio ouvidor. Com 60 mil policiais nas ruas e baterias que duram 12 horas, a cobertura será sempre parcial.
Prioridade orçamentária e descontentamento
Os recursos seguem concentrados na Polícia Militar. O orçamento da segurança cresceu 11% em 2025, chegando a 20,66 bilhões de reais. Desse total, a PM recebeu o maior incremento: 13%, totalizando 12,22 bilhões. A Polícia Civil teve aumento de 9%, e a Polícia Técnico-Científica, de apenas 0,3%.
Além do orçamento robusto, os policiais militares receberam centenas de milhões em bônus por produtividade só no primeiro semestre. Eles representam menos de 16% dos servidores estaduais, mas absorvem uma fatia desproporcional desses benefícios. A lógica do incentivo financeiro ao policiamento é clara.
Enquanto isso, a Polícia Civil demonstra insatisfação. Associações e sindicatos da categoria se mobilizaram para exigir valorização. Eles pedem uma nova lei orgânica, com melhorias salariais e na carreira. O desequilíbrio nos investimentos gera tensão entre as instituições que deveriam trabalhar juntas.
Isolamento das políticas federais
Outra característica marcante da gestão foi o distanciamento do governo federal. São Paulo aderiu a apenas três de onze programas voluntários propostos pelo Ministério da Justiça. O governador criticou publicamente a proposta de emenda que cria o Sistema Único de Segurança Pública.
Para a oposição, essa postura prioriza a disputa partidária em detrimento da população. A falta de integração dificulta o compartilhamento de informações e a padronização de procedimentos. Crimes complexos, como a violência de gênero, exigem coordenação nacional para um combate eficaz.
A deputada Paula Nunes classifica a postura como irresponsável. Ela argumenta que focar na truculência nas periferias não resolve o problema. É necessário atacar o centro do poder do crime organizado. A falta de diálogo federativo, portanto, é vista como um obstáculo à segurança pública eficiente.
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