Uma investigação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal colocou o Banco Master no centro de um complexo caso que envolve R$ 308 milhões do governo de Mato Grosso. O dinheiro, pago para quitar um acordo com a operadora Oi, teria percorrido uma rede de fundos de investimento antes de chegar a empresas ligadas a familiares de políticos influentes. O ministro Flávio Dino atendeu a um pedido da Polícia Federal para buscar provas sobre lavagem de dinheiro e organização criminosa.
As autoridades suspeitam que o esquema teve como objetivo transformar recursos públicos em patrimônio privado. Para isso, teria sido montada uma estrutura financeira com mais de quinze fundos de investimento. A operação desta quinta-feira incluiu bloqueio de bens, suspensão de atividades desses fundos e a quebra de diversos sigilos. O governador Mauro Mendes e o deputado Fábio Garcia, ambos do União Brasil, são citados no caso.
A investigação ainda está em andamento e não representa uma condenação. No entanto, os indícios apontados pela polícia foram considerados robustos pelo ministro do STF. A decisão judicial tem 64 páginas e detalha cada etapa da movimentação financeira sob suspeita. O próximo passo será analisar toneladas de documentos apreendidos durante as buscas para esclarecer o destino final do dinheiro.
A origem do acordo com a Oi
Tudo começou com uma disputa tributária antiga entre Mato Grosso e a antiga Brasil Telecom. O estado cobrou judicialmente cerca de R$ 78 milhões da empresa em 2009. Anos mais tarde, o Supremo considerou inconstitucional a lei estadual que permitia essa cobrança. Com isso, a situação se inverteu e o governo passou a ser o devedor.
Em outubro do ano passado, a Oi vendeu o direito de receber esse crédito para um escritório de advocacia por R$ 80 milhões. Esse mesmo escritório, então, apresentou ao estado uma conta muito maior. O pedido de restituição ultrapassava R$ 583 milhões. Após negociações, as partes fecharam um acordo no valor de R$ 308,1 milhões em abril de 2024.
A Polícia Federal estranhou vários pontos desse acordo. A Procuradoria-Geral do Estado teria abrido mão de argumentos jurídicos favoráveis e aceitado cálculos que inflaram o valor. Além disso, o pagamento foi feito em apenas oito parcelas, fora do sistema normal de precatórios. O estado nem tinha verba orçamentária para isso e precisou abrir créditos suplementares.
A rede de fundos de investimento
O que mais chamou a atenção dos investigadores foi a movimentação do dinheiro. Dois fundos específicos, o Royal Capital e o Lotte Word, foram criados em fevereiro de 2024. A criação aconteceu quarenta e oito dias antes da assinatura do acordo com o governo. Após a celebração, foi exatamente para essas duas estruturas que o dinheiro público foi direcionado.
Para as autoridades, a criação antecipada não é uma coincidência. Ela indica que os organizadores já tinham conhecimento do resultado das negociações. A investigação descreve uma rede com mais de dez fundos criados justamente no período das tratativas. Muitos deles não tinham atividade de mercado real, funcionando apenas para pulverizar os recursos.
O objetivo dessa complexa estrutura seria dificultar o rastreamento. O dinheiro passava por várias camadas financeiras antes de chegar ao destino final. Esse método é um indício clássico de operações de lavagem de dinheiro. A estratégia visa ocultar a origem dos recursos e esconder a identidade dos verdadeiros beneficiários.
O papel do Banco Master
Foi nesse emaranhado de fundos que surgiu o nome do Banco Master. A instituição administrava originalmente cinco dos fundos considerados centrais na operação. Entre eles estavam justamente o Royal Capital e o Lotte Word, que receberam a primeira parcela dos recursos. Também administrava os fundos Zurich, London e Coliseu.
A decisão judicial não atribui responsabilidade criminal ao banco ou a seus dirigentes. No entanto, o ministro Flávio Dino determinou que a administradora entregue toda a documentação dos fundos. A polícia quer atas, extratos, contratos e a identificação de todos os cotistas e beneficiários finais. O objetivo é reconstruir o caminho completo do dinheiro.
A investigação também alcança a gestora REAG, que passou a administrar outro fundo suspeito, o Venture Finance. Esse veículo é apontado como um elo importante na rede. A análise desses documentos será crucial para entender quem realmente controlava as operações e deu as ordens para cada movimentação financeira.
O caminho percorrido pelo dinheiro
Os R$ 308 milhões foram divididos praticamente ao meio. A primeira parte, destinada ao Royal Capital, seguiu uma rota específica. Os recursos passaram pelos fundos Zurich e London até serem usados na compra de participações da Parecis Bioenergia. As cotas negociadas pertenciam a um fundo controlado pelo GS Heritage.
Esse fundo tinha entre seus investidores três filhos do governador Mauro Mendes. Na visão da Polícia Federal, a operação transformou dinheiro público em patrimônio privado. Tudo teria sido feito sob a aparência de um investimento societário comum, mascarando a origem dos recursos utilizados na transação.
A outra metade do dinheiro seguiu um caminho parecido. Os recursos do Lotte Word passaram por fundos como Golden Bird, Geonix e Coliseu. Eles chegaram ao Venture Finance antes de serem aplicados em investimentos ligados à Hotéis Global. Essa empresa tem relação com familiares do deputado federal Fábio Garcia.
O que a decisão do ministro autorizou
Apesar dos fortes indícios, o ministro Flávio Dino não aceitou todos os pedidos da Polícia Federal. Ele rejeitou o afastamento de cinco integrantes do governo estadual que negociaram o acordo. Para o ministro, a polícia não demonstrou risco de destruição de provas ou intimidação de testemunhas que justificasse essa medida cautelar.
Dino também negou a suspensão das atividades das gestoras Acura Capital e América P.E. Ele considerou que a interrupção poderia prejudicar investidores de boa-fé sem relação com o caso. Outro pedido recusado foi a venda antecipada dos bens bloqueados. O ministro entendeu que ainda é cedo para determinar a alienação dos ativos.
Por outro lado, ele manteve o congelamento de contas e a suspensão de dezoito fundos de investimento. Para o ministro, há indícios consistentes de que essas estruturas foram usadas para ocultar patrimônio e lavar dinheiro. A medida visa preservar os recursos até o fim completo das investigações.
Os desdobramentos políticos do caso
O caso coloca pressão política direta sobre o governador Mauro Mendes. Dino determinou que ele seja formalmente comunicado da decisão após as buscas. Na prática, a responsabilidade pela permanência de seus auxiliares citados na investigação agora recai sobre o governador. Ele precisará avaliar o desgaste político da situação.
A investigação também atinge um aliado importante em um momento delicado. Mauro Mendes é peça-chave na articulação política do Centro-Oeste e um dos principais apoiadores de Ronaldo Caiado. O governador de Goiás é pré-candidato à Presidência e trabalha para consolidar sua campanha nacional neste exato momento.
Os próximos sessenta dias serão decisivos. A Polícia Federal vai analisar toda a documentação apreendida e a que será fornecida pelo Banco Master e outras gestoras. Desse trabalho sairão as respostas para as perguntas centrais: quem comandava a rede e quem de fato se beneficiou com os R$ 308 milhões do estado.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.