Um dia antes da prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, os principais investidores de um fundo ligado a ele se reuniram para tratar de um assunto sensível: as regras para retirar dinheiro. A assembleia do fundo Termópilas, principal acionista da Super Empreendimentos, aconteceu em um domingo, de forma remota e sem uma convocação formal prévia. O encontro, realizado em 16 de novembro, tinha um objetivo claro na pauta: modificar os procedimentos para o resgate total de cotas e os pagamentos aos investidores.
Não há registros públicos que confirmem se, de fato, houve grandes saques de recursos logo após essa mudança nas regras. O fato é que o timing chama a atenção. No dia seguinte àquela assembleia, a Polícia Federal prendeu Vorcaro e o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master, instituição que estava no centro das negociações. O banqueiro ficou preso por doze dias, enquanto o mercado financeiro tentava entender o tamanho do problema.
A Super Empreendimentos, uma empresa com um capital social bilionário, é um elo importante nessa história. Ela é ligada diretamente a Daniel Vorcaro e ao seu cunhado, Fabiano Zettel. A empresa é dona de imóveis de alto valor, como uma mansão em Brasília onde o banqueiro recebia políticos. A conexão vai além: a Super também doou um apartamento de milhões para uma pessoa citada em investigações sobre tráfico.
A reunião que antecipou a crise
A ata da assembleia do fundo Termópilas, arquivada na CVM, mostra que os cotistas aprovaram ajustes nas regras de amortização e resgate. O quórum necessário para essas decisões também foi alterado. A justificativa para a reunião de última hora foi a presença de todos os investidores. O novo regulamento detalhou os procedimentos para que os cotistas recebam seus pagamentos.
Apesar das mudanças, é como se uma cortina de ferro tivesse baixado sobre o que aconteceu depois. Não se sabe ao certo se houve movimentações financeiras expressivas nesse período turbulento. As últimas demonstrações públicas do Termópilas, de setembro de 2025, mostram um patrimônio líquido de quase um bilhão de reais. Mas o cenário real pode ser muito maior e mais complexo.
Isso porque o Termópilas é parte de uma teia maior. Ele integra a carteira de um fundo muito maior, o Astralo 95. Em dezembro de 2025, esse fundo alcançou a marca de 27 bilhões de reais em patrimônio. No entanto, a pedido de seu administrador, a composição dessa carteira deixou de ser divulgada publicamente. A CVM permite essa ocultação por até 90 dias, prorrogáveis.
Os elos de uma rede pouco transparente
O fundo Astralo 95 não é um nome qualquer nas investigações. Ele foi citado pelo Banco Central como um dos suspeitos de participar do esquema de fraudes atribuído a Vorcaro. Também aparece em apurações sobre a possível infiltração do PCC no mercado financeiro. A falta de transparência sobre seus ativos dificulta entender a extensão dessas conexões.
A administradora desses fundos, a Reag, foi alvo da operação Carbono Oculto, que investiga relações entre empresas financeiras, o setor de combustíveis e a facção criminosa. Procurada, a gestora afirmou que não interfere nos negócios de seus clientes e não informou se houve resgates após os eventos de novembro. A assessoria de Daniel Vorcaro optou por não comentar o caso.
Os vínculos pessoais reforçam a trama. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, era diretor da Super Empreendimentos até julho de 2024. Quem permanece no cargo é Ana Cláudia Queiroz de Paiva, sócia de Zettel. Ela mantém ligações societárias e operacionais com outros negócios ligados ao banqueiro. A Super, além dos imóveis de luxo, também comprou um apartamento de uma empresa da qual Vorcaro é sócio, para depois doá-lo.
O que fica claro no meio da névoa
A sequência de eventos desenha um movimento estratégico. A alteração nas regras de resgate ocorreu na véspera de um terremomo no mundo de Vorcaro. Isso pode indicar uma tentativa de proteger recursos ou facilitar saídas antes que a situação judicial travasse tudo. Sem confirmação pública de movimentação, resta a suspeita e o timing eloquente.
A opacidade é uma constante. Fundos dentro de fundos, carteiras com detalhes ocultos e empresas que se relacionam entre si formam um emaranhado difícil de desvendar. As investigações das autoridades tentam justamente mapear esses caminhos e identificar os beneficiários finais de todo esse volume de recursos. Enquanto isso, as informações disponíveis ao público são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior.
O caso segue em aberto, com ramificações que vão desde suspeitas de fraude financeira até ligações com o crime organizado. Cada nova revelação joga luz sobre um arranjo complexo, onde as decisões tomadas em assembleias de domingo podem ter consequências multimilionárias. A história ainda está sendo escrita, mas seus capítulos iniciais mostram que os fios se movem muito antes que a notícia chegue ao público.
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