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Fome recua mais em lares com Bolsa Família chefiados por mulher, mostra pesquisa

Os números recentes sobre fome no Brasil trazem um alívio e um destaque importante. De 2023 para 2024, a situação de insegurança alimentar grave recuou nas casas de famílias beneficiadas pelo Bolsa Família. Essa melhora foi ainda mais expressiva nos lares comandados por mulheres.

Um estudo da Fundação Getulio Vargas revela dados que merecem atenção. Nos domicílios que superaram a fome e alcançaram a segurança alimentar, 71% tinham uma mulher como responsável. A pesquisa comparou os últimos trimestres de cada ano, captando uma mudança significativa em um período curto.

Essa transição significa muito na vida real. Deixar a insegurança alimentar grave quer dizer que a família não precisa mais enfrentar a redução drástica de comida. Para os adultos e as crianças, o prato passa a ser regular. É a diferença entre a privação extrema e a tranquilidade na hora das refeições.

O impacto da chefia feminina

A queda da fome foi mais acentuada onde a mulher é a chefe da família. Entre esses lares com Bolsa Família, a taxa de insegurança alimentar grave caiu 2,4 pontos percentuais. Nos comandados por homens, a redução foi de 1,8 ponto. Os números mostram uma tendência clara.

A pesquisadora Janaína Feijó, da FGV, explica o motivo. As mulheres tendem a administrar os recursos de forma diferente, priorizando o bem-estar de todos. Elas direcionam o orçamento para itens essenciais, como alimentação, saúde e educação das crianças. O dinheiro, portanto, é aplicado no núcleo das necessidades familiares.

Em apenas um ano, quase 670 mil domicílios chefiados por mulheres saíram da fome e atingiram a segurança alimentar. Esse movimento representa a maior parte dos quase 947 mil lares beneficiários que fizeram essa transição. A gestão do orçamento familiar faz uma diferença prática e mensurável.

Como funciona o Bolsa Família

O programa é a principal política de transferência de renda do país. Para ter direito, a renda familiar mensal por pessoa não pode ultrapassar R$ 218. O benefício base é de R$ 600, mas esse valor pode aumentar. Grávidas e famílias com crianças, por exemplo, recebem um complemento.

Atualmente, o valor médio pago às famílias é de R$ 683,75. Só em março, o programa deve atingir cerca de 18,7 milhões de famílias cadastradas. O investimento total é grande, mas os resultados aparecem nos lares. É um recurso que chega diretamente na ponta, sem intermediários.

A decisão de priorizar as mulheres como titulares do cartão foi estratégica. Dados de janeiro mostram que 84,4% das famílias atendidas têm uma mulher como responsável pelo benefício. Isso fortalece seu papel nas decisões financeiras da casa. O poder de barganha e a autonomia feminina crescem junto com a renda.

A dimensão racial da segurança alimentar

A pesquisa também joga luz sobre um aspecto crucial: a cor da pele. Entre os lares que venceram a fome, 61,4% eram chefiados por mulheres pretas ou pardas. Isso representa cerca de 581 mil famílias. A vulnerabilidade social e a insegurança alimentar têm uma forte ligação com a desigualdade racial no Brasil.

A ministra Anielle Franco esteve na divulgação do estudo e reforçou esse ponto. Combater a fome exige pensar em raça, pois a população negra é a mais afetada. Ela lembrou que ninguém estuda de barriga vazia. A segurança alimentar é o primeiro degrau para o desenvolvimento educacional e a superação da pobreza.

Direcionar a renda para mulheres em situação de vulnerabilidade, especialmente mulheres negras, gera um efeito em cadeia. A comida na mesa é o começo. Depois, vem a capacidade de planejar, de cuidar da saúde e de garantir que as crianças possam aprender na escola. É um ciclo virtuoso que se inicia.

O Brasil e o Mapa da Fome

O evento na FGV também discutiu um marco importante. Em 2025, o Brasil deixou pela segunda vez o chamado Mapa da Fome da ONU. Esse mapa lista países onde mais de 2,5% da população sofre com subalimentação grave. É um sinal de alerta internacional que conseguimos desativar.

A conquista anterior, em 2014, foi perdida. Em 2022, o país tinha 33 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave. Nos dois anos seguintes, 26,5 milhões de pessoas saíram dessa condição. Políticas públicas consistentes mostraram seu efeito na vida das pessoas mais vulneráveis.

O estudo projeta o que aconteceria sem o Bolsa Família. Entre os beneficiários, a segurança alimentar cairia e a fome na sua forma mais grave aumentaria. Os resultados reforçam que programas de transferência de renda são ferramentas poderosas. Eles são decisivos para reduzir a vulnerabilidade social e construir um país mais justo.

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