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‘Foi um dever existencial’ denunciar

Você sabe quando uma notícia te deixa com aquela sensação de aperto no peito? Às vezes, um caso judicial traz à tona muito mais do que uma simples decisão técnica. Ele pode reabrir feridas antigas e revelar padrões que vão além dos autos processuais.

Um desembargador de Minas Gerais, Magid Nauef Láuar, está no centro de uma situação delicada. Ele foi denunciado ao Conselho Nacional de Justiça por um primo de segundo grau, que alega ter sofrido uma tentativa de abuso sexual quando era adolescente. O CNJ já ouviu outras quatro pessoas com relatos similares envolvendo o magistrado.

Através do Tribunal de Justiça, o desembargador informou que não vai se pronunciar sobre as acusações. O caso veio à tona publicamente após uma decisão polêmica do próprio juiz, que acabou sendo o gatilho para que o passado viesse à superfície.

O denunciante, Saulo Láuar, hoje com 42 anos, trabalhou para o primo entre os 13 e os 15 anos. Ele era uma espécie de assistente pessoal, fazendo pagamentos de contas e outros afazeres do dia a dia. A convivência próxima, que deveria ser de confiança familiar, é agora o pano de fundo de uma lembrança traumática.

Saulo conta que a decisão do desembargador de absolver um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável foi um choque. Para ele, foi como ver um padrão se repetindo. A insatisfação coletiva com a sentença o fez sentir um “dever existencial” de quebrar o silêncio sobre o que viveu décadas atrás.

Ele descreve que, ao fazer a denúncia pública, seu corpo ficou tenso e dolorido, com a garganta entalada. Cada detalhe do fato retornou à memória com uma clareza angustiante. Porém, para não retomar a ferida emocional de forma muito crua, ele optou por não detalhar publicamente o episódio específico do suposto abuso.

A decisão judicial que acendeu o alerta

A polêmica começou com um caso sob a relatoria do desembargador Magid. Um réu de 35 anos, que mantinha relação sexual com uma criança de 12 anos, foi absolvido. A justificativa judicial seguiu um entendimento técnico, mas que ignorou a realidade brutal do crime: a menina era uma vulnerável, ponto final.

Essa absolvição causou revolta na sociedade e, principalmente, em Saulo. Ele viu naquela decisão um eco assustador de sua própria história. Foi esse paralelo que o motivou a enfrentar publicamente seu primo e a expor a dor que carregava há tanto tempo. O silêncio não era mais uma opção.

A repercussão foi tão forte que, dias depois, o próprio desembargador reverteu a decisão. Ele acatou um recurso do Ministério Público e condenou o homem. Em sua nova decisão, Magid sinalizou arrependimento pelo caminho inicial tomado, criticando a postura do judiciário que, por vezes, desconsidera a realidade social.

O peso de quebrar o silêncio

Romper anos de silêncio sobre um trauma sexual é um ato de coragem imensurável. A pessoa se vê entre a necessidade de falar e o medo das consequências. O corpo reage, as memórias voltam com força total, e a sensação de vulnerabilidade pode ser esmagadora. É um processo doloroso, mas muitas vezes necessário para iniciar um fechamento.

Para vítimas que veem seus agressores em posições de poder, a situação é ainda mais complexa. A autoridade da figura do agressor parece se renovar a cada dia, criando uma barreira adicional para a denúncia. Quando esse poder é exercido dentro do sistema que deveria proteger, o sentimento de injustiça se multiplica.

O caso segue em investigação pelo CNJ, e seu desfecho é aguardado. Mais importante do que o processo disciplinar, porém, é a discussão que ele levanta. Ele mostra como decisões judiciais frias têm um impacto humano profundo e como o grito de uma vítima pode, finalmente, encontrar eco para mudar rumos.

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