Há um filme em produção no Brasil que está dando o que falar, e não é só pela história que pretende contar. A obra, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, mistura elementos de pornochanchada com filmes de terror de baixo orçamento. A descrição vem de um profissional que trabalhou no set e acredita que o resultado pode ser um verdadeiro desastre estético, talvez até se tornando um clássico “cult” pelo tom caricato.
Antes mesmo de chegar aos cinemas, uma cena vazada nas redes sociais já virou piada. Nela, o ator Jim Caviezel, que interpreta Bolsonaro, leva uma facada. A sequência, que tenta recriar o ataque de 2018 em Juiz de Fora, foi considerada tão artificial que até apoiadores mais antigos do bolsonarismo estranharam. A falta de realismo, no entanto, é apenas um detalhe diante de uma questão muito mais séria.
O verdadeiro impacto dessa superprodução não está na tela, mas nos cofres públicos. Quem mais critica os incentivos fiscais da Lei Rouanet está, ironicamente, se beneficiando de volumosas verbas estatais para financiar a vida de uma figura condenada por tentativa de golpe. O filme se transformou em um grande dreno de recursos que deveriam servir à população.
O financiamento público de uma cinebiografia polêmica
A produtora responsável pelo filme, chamado “Dark Horse”, recebeu um contrato milionário da prefeitura de São Paulo. Oficialmente, os mais de R$ 100 milhões são para levar internet Wi-Fi a comunidades carentes da capital. A conexão entre esse serviço e a produção de um longa-metragem é, no mínimo, curiosa e levanta sérios questionamentos sobre o uso do dinheiro.
Além disso, a mesma produtora recebeu R$ 2 milhões em emendas parlamentares. O deputado Mario Frias, autor do repasse, é justamente o roteirista da cinebiografia. A situação configura um claro conflito de interesses, onde um parlamentar direciona verbas públicas para um projeto de sua própria autoria, disfarçando o financiamento através de uma organização não governamental.
O problema, portanto, vai muito além de uma discussão artística ou política. Trata-se de um desvio de finalidade, onde programas sociais urgentes são usados como fachada para bancar uma produção cinematográfica. O contribuinte acaba pagando a conta duas vezes: primeiro com seus impostos, e depois assistindo a esse dinheiro ser desviado de suas necessidades reais.
Denúncias de abusos e um set de filmagem conturbado
Enquanto o orçamento incha com dinheiro público, o set de filmagem parece ser palco de más condições de trabalho. O Sindicato dos Artistas e Técnicos de São Paulo recebeu várias queixas formais. Profissionais relataram atrasos constantes no pagamento de seus cachês, além de situações de abuso e agressão durante as gravações.
Essas denúncias pintam um cenário de exploração, bem distante da grandiosidade que um projeto de mais de cem milhões de reais deveria ter. Se o dinheiro está fluindo, ele claramente não está chegando às mãos dos trabalhadores que tornam o filme possível. A prioridade, infelizmente, não parece ser o bem-estar da equipe.
A cena da facada, tão criticada por seu tom artificial, acaba se tornando um símbolo irônico do projeto. A “facada” real, muito mais dolorosa, é dada no bolso do cidadão. Enquanto a verossimilhança artística é questionada, o prejuízo aos cofres públicos e aos direitos dos trabalhadores é lamentavelmente real e concreto. O filme ainda não estreou, mas seu rastro de problemas já está em cartaz.
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