O Rio de Janeiro amanheceu diferente neste domingo. Enquanto muitos buscavam o sol na areia, uma multidão se reuniu na orla de Copacabana com outro propósito. O clima era de protesto, mas também de encontro, com música e falas que ecoaram pelo calçadão. O motivo que uniu tanta gente foi a discussão em torno do Projeto de Lei da Dosimetria, que segue para votação no Senado.
A proposta, já aprovada pela Câmara, mexe nos critérios para que presos possam progredir de regime. Para quem está nas ruas, a mudança pode beneficiar condenados por crimes contra a democracia. O temor é que figuras envolvidas nos eventos de 8 de janeiro de 2023 sejam liberadas mais cedo. O assunto virou um grande ponto de interrogação sobre o futuro da Justiça no país.
Os atos não surgiram do nada. Eles foram convocados por nomes conhecidos da cultura, formando uma rede de protestos em várias capitais. No Rio, o chamado partiu de Caetano Veloso, mostrando como o tema ultrapassou os muros do Congresso. Virou uma questão pública, que mobiliza desde artistas até quem nunca foi a uma manifestação antes.
A voz de Fernanda Torres em Copacabana
Perto do Posto 5, um carro de som virou palco. Foi de lá que a atriz Fernanda Torres dirigiu a palavra à multidão. Seu discurso misturou defesa da democracia com pautas ambientais e direitos das mulheres. Ela foi direta ao cobrar responsabilidade dos parlamentares, afirmando que o Congresso não pode criar leis que sirvam a seus próprios interesses.
A artista também usou a cultura como arma de protesto. Ela recorreu a frases de “Ainda Estou Aqui”, filme pelo qual ganhou o Globo de Ouro. O título da obra se transformou em um grito de guerra coletivo na praia. A cena mostrou como a arte e a vida real se entrelaçam, especialmente em momentos de tensão política.
Fernanda não estava sozinha no trio elétrico. Ao seu lado, estavam Lenine e uma constelação de vozes influentes. A força do ato veio justamente dessa união entre o popular e o político, entre o ritmo e a reivindicação. Milhares de pessoas passaram a tarde ali, em um protesto que funcionou quase como um grande show pela democracia.
Um coro nacional contra as mudanças
O que aconteceu no Rio foi apenas um capítulo. No mesmo dia, cidades como São Paulo, Brasília e Recife também viram suas ruas se encherem de gente. O projeto de lei serviu como estopim, mas as faixas e os gritos carregavam outras insatisfações. A escala de trabalho 6×1 e a violência contra mulheres foram alguns dos temas que ganharam espaço.
Em cada cidade, o protesto ganhou um colorido local, mas o centro das preocupações era comum. A sensação compartilhada era a de que certas conquistas sociais estão sob risco. As pessoas foram às ruas movidas por um instinto de proteção ao que consideram justo, em um movimento orgânico e descentralizado.
O caminho agora é o Senado, onde a proposta será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça. O resultado dessa análise é incerto, mas o recado das ruas foi dado de forma clara. A sociedade mostrou que está atenta aos movimentos do Congresso. O debate sobre quem merece uma segunda chance e como a Justiça deve funcionar está longe do fim.
O domingo de protestos terminou com o pôr do sol nas praias e avenidas. As pessoas foram para casa, mas o assunto permanece. A dosimetria das penas pode parecer um tema técnico e distante, mas as manifestações provaram o contrário. Ela toca em questões profundas sobre responsabilidade, democracia e o tipo de país que se quer construir.
Enquanto os senadores se preparam para discutir o texto, o eco dos discursos e das músicas ainda ressoa. A política, muitas vezes confinada a gabinetes, invadiu o espaço público de forma vibrante e barulhenta. O desfecho legal ainda está por vir, mas o capítulo de domingo já entrou para a história das mobilizações sociais no Brasil.
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