Você sempre atualizado

Exército mantém cursos nos EUA e paga US$ 800 mil durante crise com Trump

Enquanto os jornais noticiavam o tom cada vez mais firme do governo brasileiro em relação aos Estados Unidos, um fluxo constante de militares seguia cruzando o Atlântico. A cena política fervilhava com discursos sobre soberania e fortalecimento das Forças Armadas. Nos bastidores, porém, a cooperação militar entre os dois países mantinha seu ritmo habitual, quase sem alterações.

Essa continuidade ficou clara em uma série de atividades. De meados de 2025 a meados de 2026, oficiais brasileiros participaram de treinamentos nos Estados Unidos e em operações conjuntas. O Exército, inclusive, destinou centenas de milhares de dólares para custear cursos e exercícios em solo americano. A sensação era de que, independentemente da temperatura no plano diplomático, a máquina militar seguia seu curso.

O contraste se tornou ainda mais nítido em certos momentos. Enquanto autoridades brasileiras defendiam publicamente maior autonomia, documentos internos mostravam novas autorizações de pagamento para treinamentos. Enquanto eventos bilaterais de alto nível eram cancelados, outros programas de cooperação técnica eram lançados ou mantidos. Aparentemente, dois universos coexistiam.

Uma cronologia de atividades paralelas

A crise diplomática entre os dois países ganhou as manchetes ao longo de 2025. No mesmo período, porém, uma agenda militar extensa foi cumprida. Em julho daquele ano, por exemplo, militares da Guarda Aérea Nacional de Nova York já treinavam com a Força Aérea Brasileira em Campo Grande. A Operação Tápio focava na defesa de bases aéreas e proteção de aeródromos.

Mesmo após o cancelamento americano de eventos importantes, como uma conferência espacial em Brasília, outras frentes seguiram adiante. Em setembro de 2025, a fragata Independência, da Marinha do Brasil, integrou a exercício naval UNITAS, tradicionalmente liderado pelos Estados Unidos. O fluxo de militares para cursos de especialização no exterior também não parou.

Os investimentos financeiros nessa ponte continuaram firmes. Em novembro de 2025, o comando do Exército autorizou um novo aporte de quatrocentos mil dólares para o programa que financia cursos em escolas militares americanas. Um mês depois, foi criada uma conta específica para custear exercícios de tropas brasileiras em centros de treinamento de combate dos Estados Unidos.

A cooperação que se reinventa

O ano de 2026 começou com a retomada de uma atividade antes suspensa. Oficiais brasileiros viajaram ao Texas em março para planejar a exercício CORE 26. No mesmo mês, participaram de intercâmbios sobre comunicações, neutralização de explosivos e de uma conferência bilateral de Estado-Maior. A relação operacional parecia encontrar seus próprios caminhos.

Em maio, a cooperação atingiu um patamar emblemático. A Marinha do Brasil realizou exercícios conjuntos com o porta-aviões nuclear USS Nimitz. Os comandantes da Marinha e do Exército brasileiros chegaram a embarcar na embarcação americana. Era um sinal claro de interoperabilidade, a capacidade de forças distintas atuarem como uma só.

Os meses seguintes trouxeram mais iniciativas. De junho a julho de 2026, militares brasileiros estiveram em exercícios navais, de defesa cibernética e no multinacional Salitre. Este último incluiu até uma célula de operações espaciais coordenada pela Força Espacial dos Estados Unidos. A agenda, portanto, era diversa e abrangente, indo muito além do convencional.

Os laços que vão além do treinamento

Especialistas que estudam as Forças Armadas destacam que essa relação é profunda. Vai muito além da realização de exercícios conjuntos ou intercâmbios pontuais. Trata-se de uma conexão construída ao longo de décadas, baseada em confiança mútua e em uma visão de mundo muitas vezes alinhada. A confiança operacional parece ser sólida.

Essa influência se manifesta de formas concretas. Uma delas é na formação doutrinária dos oficiais brasileiros, que assimilam conceitos e procedimentos. Outra é na organização das próprias forças, que pode espelhar estruturas militares americanas. O alinhamento é frequentemente citado pelos próprios comandantes das Forças Armadas do Brasil.

A dependência também tem um componente material muito claro. A aquisição de equipamentos e sistemas militares de um país específico traz consigo uma forma de organização. Ao importar tecnologia, muitas vezes é necessário importar também métodos, treinamentos e até uma certa cultura institucional. Isso cria um vínculo difícil de ser rompido.

A autonomia em questão

A continuidade de todas essas atividades em meio a uma crise diplomática revela uma contradição. Enquanto se fala publicamente em fortalecer a soberania nacional, a prática cotidiana das Forças Armadas mantém uma relação estrutural de estreita cooperação. As disputas políticas momentâneas parecem não afetar essa engrenagem já consolidada.

Isso recoloca um debate fundamental. Até que ponto as Forças Armadas brasileiras conseguem, ou mesmo desejam, traçar um caminho verdadeiramente independente? A questão não é apenas sobre comprar ou não comprar equipamentos. Envolve doutrina, formação de pessoal, planejamento estratégico e visão de defesa.

A construção de uma autonomia plena, portanto, parece ser um projeto de longo prazo. Exige não apenas discurso, mas decisões concretas que redefinam essas parcerias históricas. Enquanto isso, os aviões continuam levando e trazendo militares, os exercícios são planejados e os cursos, frequentados. A máquina segue funcionando.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.