Um narcotraficante espanhol condenado a anos de prisão parece personagem de série policial. Mas sua história se misturou, de forma surpreendente, ao sistema financeiro brasileiro. Investigações apontam que dinheiro do crime ajudou a comprar um banco que virou notícia por um grande esquema de fraudes.
As peças desse quebra-cabeça complexo envolvem um banco liquidado, um empresário preso e operações bilionárias. No centro, está a figura de Oliver Ortiz, preso no Rio em 2013 por tráfico internacional e lavagem de dinheiro. Sua condenação não impediu que seus recursos, segundo apurado, circulassem por fundos de investimento.
A ponte entre esse mundo e o mercado financeiro teria sido um operador chamado Benjamim Botelho. Ele é apontado como o elo que conectou o traficante ao empresário Daniel Vorcaro. Foi Vorcaro quem adquiriu o então Banco Máxima, que mais tarde se tornou o Banco Master. A instituição faliu no ano passado após uma intervenção do Banco Central.
O elo financeiro de um esquema bilionário
Benjamim Botelho não é um nome desconhecido das autoridades. Ele já foi denunciado pelo Ministério Público Federal por gestão fraudulenta no período em que o banco ainda se chamava Máxima. As investigações sugerem que ele atuava como um sócio oculto de Daniel Vorcaro, operando nos bastidores das negociações.
A corretora Sefer Investimentos, ligada a Botelho, aparece com frequência nos autos da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. Essa corretora administrava fundos do Grupo Aquilla, onde Oliver Ortiz figurava como um dos principais investidores. Documentos mostram que ele tinha quase meio bilhão de reais aplicado nesses fundos.
Segundo uma fonte do mercado financeiro, foi por meio de um desses fundos que o dinheiro de Ortiz entrou na operação para comprar o Banco Máxima. Em resumo, recursos do narcotráfico teriam sido usados para adquirir a instituição financeira que faltava ao grupo estender seus negócios. A aquisição foi o ponto de partida para uma série de fraudes.
A máquina de fraudes do Banco Master
O esquema investigado pela Polícia Federal segue um roteiro conhecido. A prática envolvia comprar empresas por um valor baixo e depois inflar artificialmente seus resultados. O objetivo era fazer crer que essas empresas valiam muito mais do que o preço real pago por elas.
Essas operações eram estruturadas para desviar recursos de fundos de investimento. O dinheiro ia parar em empresas controladas pelos envolvidos, em prejuízo dos investidores comuns. As suspeitas incluem manipulação de preços e uso de informações privilegiadas para obter ganhos ilegais.
Em uma das manobras, o banco teria usado um fundo de investimento do próprio grupo para simular uma valorização de capital. Era uma forma de maquiar uma grave insuficiência de recursos. O Banco Central descobriu que o dinheiro usado na compra de ações era, na verdade, do próprio Banco Máxima. Uma triangulação clássica para fraudar demonstrativos financeiros.
O rastro de terrenos e offshores
Como um traficante consegue colocar tanto dinheiro no sistema formal? A investigação mostra que Oliver Ortiz adotou um método aparentemente simples. Ele comprava terrenos por valores muito baixos, principalmente na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.
Depois, ele usava esses terrenos para integralizar cotas em fundos de investimento geridos pelo Grupo Aquilla. Os imóveis passavam por avaliações que atribuíam um valor de mercado muito superior ao preço pago. Dessa forma, o patrimônio de Ortiz como cotista era multiplicado várias vezes, lavando o dinheiro do tráfico.
Parte desses terrenos acabou envolvida em processos judiciais. O Ministério Público Federal identificou que alguns deles já estavam bloqueados desde 2013, por serem bens do traficante. Ainda assim, foram usados como garantia em operações financeiras. O rastro também leva a uma offshore nas Bahamas, aberta pouco depois da liquidação do Banco Master.
Quem é o narcotraficante investidor
Oliver Ortiz de Zarate Martin tinha 35 anos quando foi preso, em 2013, em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca. A Justiça brasileira o condenou a 16 anos de prisão por liderar uma organização que enviava cocaína para a Europa, principalmente por via marítima. Ele mesmo era mergulhador e planejava as rotas.
Para lavar os lucros do crime, ele montou uma rede complexa. Adquiria imóveis de alto padrão, registrava bens em nome de laranjas e usava empresas de fachada. Era dono de coberturas tríplex, casas noturnas e restaurantes no Rio. Em março do ano passado, a Polícia Federal notificou sua expulsão do Brasil, que deve ocorrer após ele cumprir a pena.
Sua conexão com o mercado financeiro brasileiro surgiu por meio de intermediários. Um empresário chamado Yan Hirano teria apresentado Ortiz a Benjamim Botelho. Desse encontro, nasceu uma parceria que, segundo as investigações, injetou centenas de milhões de reais de origem criminosa em fundos e, por fim, na aquisição de um banco.
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