A bola já está rolando outra vez nos estados brasileiros. Menos de um mês depois do fim da última temporada, os campeonatos estaduais voltam a ocupar o calendário. A temporada 2026 começou na última terça-feira no Ceará, Paraná e Santa Catarina. Entre sábado e domingo, a competição chega a outros quinze estados. Essa tradição, no entanto, vive um momento de grandes questionamentos e transformações.
O principal motivo é a sobrecarga no calendário. Nos últimos anos, os clubes passaram a jogar uma quantidade enorme de partidas. Algumas equipes chegaram a disputar entre setenta e oitenta jogos por temporada. Para aliviar essa pressão, a solução encontrada foi reduzir os estaduais. Eles são vistos como as competições de menor apelo atualmente. O calendário da CBF para este ano reserva no máximo onze datas para esses torneios.
Outro problema sério é o esvaziamento das arquibancadas. Estádios vazios se tornaram uma cena comum durante os estaduais. Para se ter uma ideia, a média de público do Campeonato Carioca em 2025 foi de apenas 8.468 pagantes. Em Minas Gerais, a média ficou em 7.070. Em São Paulo, foi um pouco maior: 12.398 pagantes por jogo. No Brasileirão do mesmo ano, a média foi de 25.531. Essa diferença mostra como o torneio nacional atrai muito mais interesse.
### O impacto financeiro para os clubes
Com menos gente nos estádios, a receita das bilheterias despenca. Esse dinheiro é vital para os clubes, que precisam bancar investimentos altíssimos e folhas salariais milionárias. A situação financeira ficou ainda mais complicada com a queda no valor das premiações. Em alguns casos, o campeão sequer recebe um prêmio em dinheiro. Nos últimos quatro anos, o vencedor do Carioca, por exemplo, não ganhou nenhuma premiação direta por título.
O acordo entre os clubes e a federação local previa apenas o pagamento de cotas de televisão. Esse valor era fixo para todas as equipes, independente da colocação final. Para 2026, o modelo mudou um pouco. Setenta por cento dos ganhos continuam fixos, mas trinta por cento serão distribuídos conforme o desempenho. O campeão carioca deve receber cerca de dez milhões de reais nesse novo formato.
Mesmo com o ajuste, os valores ainda são baixos se comparados a outras conquistas. O Corinthians, por exemplo, arrecadou setenta e sete milhões de reais ao vencer a última Copa do Brasil. Essa disparidade deixa claro o abismo financeiro entre um título estadual e uma taça nacional. O orçamento necessário para montar um time competitivo hoje é incompatível com a receita que os estaduais geram.
### O prestígio esportivo em declínio
Além dos números, o valor simbólico do título também diminuiu. Houve um tempo em que vencer o estadual era o grande objetivo do ano para muitos clubes. Hoje, essa conquista perdeu prestígio. Com o futebol mais caro e globalizado, os grandes times do Brasil miram competições maiores. Um exemplo marcante foi um dirigente do Palmeiras que, em 2018, chamou o título estadual do Corinthians de “Paulistinha”.
O troféu, conquistado geralmente em abril, é esquecido com incrível velocidade. A prova mais clara disso é o destino de alguns técnicos campeões. No ano passado, Cuca foi demitido pelo Atlético-MG em agosto, meses depois de vencer o Mineiro. Ramon Diaz, técnico campeão paulista pelo Corinthians, foi dispensado apenas vinte e um dias após levantar a taça. A vitória regional não garante segurança no cargo.
Ainda assim, o torcedor nunca rejeita uma comemoração. Ver o time levantar um troféu, especialmente em um clássico contra o rival direto, é sempre especial. A história do futebol está cheia de momentos inesquecíveis proporcionados pelos estaduais. Seja pela nostalgia ou pela dificuldade em reformular o calendário, esses campeonatos seguem firmes. Eles continuam sendo a primeira competição do ano para a maioria dos times brasileiros.
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