As aulas recomeçam nesta segunda-feira na rede estadual de São Paulo, e cem escolas terão uma novidade em seu dia a dia. Elas passam a funcionar sob o modelo cívico-militar, uma promessa de campanha do governador Tarcísio de Freitas. A estreia, porém, acontece com um problema prático: os alunos ainda não receberam os uniformes oficiais.
A entrega das roupas está atrasada. A Secretaria de Educação afirma que o processo de compra ainda está sendo finalizado. A licitação foi aberta em abril do ano passado, mas problemas técnicos com alguns modelos de camiseta atrasaram a conclusão. Enquanto isso, as famílias precisam se virar.
Muitas escolas enviaram orientações sobre o vestuário provisório. Em uma unidade de Osasco, por exemplo, os pais foram informados que calças jeans não serão mais permitidas. A recomendação é usar calças pretas de tecido como moletom ou sarja, junto com camisetas cinza.
O programa envolve 53 mil estudantes, cerca de 1,5% do total da rede estadual. Para supervisionar o novo modelo, 208 policiais militares aposentados foram contratados. Eles atuarão dentro das escolas, focando em disciplina e ordem. A ideia sempre foi um dos cartões de visita do governo para seu público mais conservador.
Originalmente, a previsão era que as escolas cívico-militares começassem em 2025. Uma série de decisões judiciais, no entanto, adiaram a implementação. O uniforme, quando chegar, será azul e branco. Cada aluno deve receber duas camisetas, duas calças, um casaco e duas bermudas.
O custo estimado para essa compra é de R$ 57,6 milhões. O edital previa 1,2 milhão de peças. Enquanto a secretaria resolve a licitação, a rotina nas escolas já muda. As regras do novo regimento interno já estão valendo, mesmo sem a vestimenta padronizada.
As regras de conduta e aparência já estão em vigor
O uniforme é apenas um detalho dentro de um conjunto mais rígido de normas. O regimento das escolas cívico-militares estabelece mudanças visíveis no comportamento dos alunos. Meninas, por exemplo, devem manter o cabelo preso durante as aulas. Para os meninos, são obrigatórios cortes de cabelo curtos.
Acessórios como bonés e piercings estão proibidos. Roupas consideradas muito curtas também não serão permitidas. A disciplina é um pilar central desse modelo. As informações sobre essas mudanças foram enviadas às famílias antes do início das aulas.
A presença dos militares aposentados reforça essa atmosfera. Eles atuarão em funções de gestão disciplinar e organização. A proposta é que a escola funcione com uma hierarquia mais definida e um código de conduta explícito. Para muitas famílias, é uma adaptação que começa agora.
O custo adicional e a polêmica salarial
A implementação do modelo tem um preço alto para os cofres públicos. Serão gastos R$ 17 milhões por ano apenas com os pagamentos dos militares aposentados. Cada um recebe uma diária de R$ 301,70 por dia de trabalho. Com uma carga horária máxima, o complemento pode chegar a R$ 6.000 mensais.
Esse valor se soma à aposentadoria que já recebem da corporação. A maioria dos selecionados são praças, ou seja, ocupavam patentes mais baixas. Para essas posições, não é exigida formação universitária. Esse detalhe gera uma comparação inevitável com a remuneração dos professores.
O complemento pago aos militares é 8% maior que o piso salarial de um professor da rede estadual. O docente, para lecionar, precisa de formação superior específica. A diferença levanta debates sobre as prioridades do investimento em educação. O dinheiro poderia ser usado em outras áreas.
Internamente, o programa não era visto como prioridade pela equipe técnica da educação. Em maio do ano passado, o governador sancionou o projeto em um evento com aliados bolsonaristas. O secretário de Educação, Renato Feder, sequer compareceu à cerimônia. O sinal de desalinhamento foi claro.
Agora, o projeto segue em frente. As escolas adaptam sua rotina, os alunos aprendem as novas regras e os uniformes devem chegar em algum momento. O ano letivo começa testando na prática um modelo que divide opiniões e custa caro. O resultado dessa experiência só o tempo dirá.
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