O Carnaval do Rio está prestes a testemunhar um momento inédito. Pela primeira vez na história, uma escola de samba do Grupo Especial vai homenagear diretamente um presidente em exercício. A Acadêmicos de Niterói sobe à Sapucaí neste domingo com um enredo dedicado a Luiz Inácio Lula da Silva. A agremiação canta a trajetória do petista, do alto do mulungu, árvore de sua infância no Nordeste, até o Palácio do Planalto.
A presença política promete ser intensa na avenida, mas com regras claras. O próprio presidente Lula não vai desfilar. Ele assistirá ao espetáculo do camarote da prefeitura, ao lado do prefeito Eduardo Paes. A primeira-dama Janja, no entanto, junto com familiares e amigos do presidente, estará no chão, seguindo o carro alegórico. Ministros de Estado receberam orientação expressa do Planalto para não participarem do desfile.
A justificativa é evitar qualquer risco de configurar propaganda eleitoral antecipada. A proximidade das eleições transforma qualquer manifestação pública em campo minado. Um desfile com tantas figuras políticas, principalmente de um partido no poder, pode ser visto como um ato de campanha. Essa é exatamente a acusação feita por partidos de oposição, que tentaram barrar a apresentação na Justiça.
A batalha judicial foi intensa, mas a escola garantiu seu direito de desfilar. Partidos como o Novo e o Missão entraram com ações no Tribunal Superior Eleitoral. Eles argumentavam que o samba-enredo ultrapassava a cultura e virara peça de promoção política, um pedido de voto antecipado. Chegaram a pedir uma multa milionária, calculada com base no custo econômico do desfile. No entanto, os ministros do TSE foram unânimes em negar o pedido de liminar.
A relatora, ministra Estela Aranha, foi categórica. Ela afirmou que, no momento, não há um elemento concreto de campanha eleitoral. Para a corte, proibir o desfile com base em suspeitas seria uma censura prévia, algo proibido pela Constituição. Os ministros Kassio Nunes Marques e André Mendonça, indicados ao STF por Jair Bolsonaro, concordaram com o voto. Eles destacaram que é impossível prever como o evento se desenrolará e quem, de fato, seria beneficiado.
Apesar da negativa, o processo continua em tramitação. A presidente do TSE, ministra Cármen Lúcia, deixou um aviso importante. Ela afirmou que o Carnaval não pode ser uma brecha para abusos eleitorais. Se houver excessos durante o desfile, a Justiça Eleitoral está atenta e pronta para agir posteriormente. O tribunal não deu um salvo-conduto, apenas impediu uma intervenção antecipada.
Enquanto isso, na Justiça Federal, outra frente foi aberta e também fracassou. Parlamentares tentaram suspender o repasse de verbas públicas que financiam o desfile. A escola recebeu recursos de várias esferas, incluindo a Embratur e as prefeituras de Rio e Niterói. Para os autores das ações, usar dinheiro público para uma homenagem política fere o princípio da impessoalidade.
O juiz federal Francisco Valle Brum, no entanto, rejeitou os pedidos. Ele entendeu que o caso não se encaixava nos requisitos para uma ação popular. Não havia, segundo ele, demonstração de um dano concreto ao patrimônio público que justificasse a medida. Após a decisão, a senadora Damares Alves criticou a comparação com a condenação de Bolsonaro por abuso de poder político.
A escola homenageada faz sua estreia no Grupo Especial com vento a favor. A Acadêmicos de Niterói foi campeã da Série Ouro em 2025 e chega à elite com um enredo que viralizou. O samba sobre Lula impulsionou a venda de camisas da agremiação, tornando-a líder no camelódromo da cidade. A narrativa emocional, que passa pela infância e chega à presidência, cativou o público.
A homenagem será repleta de simbolismos. A ex-primeira-dama Marisa Letícia, falecida em 2017, será representada na avenida pela atriz que a interpretou no cinema. Personalidades próximas ao presidente, como Antônio Pitanga, também desfilarão. É um evento que mistura história pessoal, cultura popular e, inevitavelmente, política em alto grau.
Olhando para trás, vemos que a política e o samba sempre dialogaram. Durante o Estado Novo, Getúlio Vargas pressionou as escolas a exaltarem símbolos nacionais. Na ditadura militar, enredos como “O Grande Decênio” da Beija-Flor celebravam os governos. A diferença agora é a figura homenageada estar no cargo. Após a redemocratização, as críticas tornaram-se muito mais comuns que os elogios.
O desfile de domingo escreverá um novo capítulo nessa longa relação. Se por um lado celebra a liberdade artística, por outro coloca à prova os limites entre cultura e campanha. Toda a movimentação judicial recente mostra o quanto o ambiente está sensível. O recado das cortes foi claro: a festa pode acontecer, mas dentro da lei. Qualquer passo em falso será analisado com lupa depois que a poeira da avenida baixar.
A Sapucaí se prepara para um espetáculo de cores, emoção e história. Os holofotes estarão na escola de Niterói e em sua ousadia. Enquanto o samba ecoa, os tribunais permanecem de olho. O Carnaval segue seu curso, mas a política, essa não tira férias. O desenrolar dos fatos na avenida definirá os próximos capítulos dessa história.
Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.