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Entre Orelhas: o cachorro, o banqueiro e o Brasil

No Brasil, às vezes parece que vivemos em dois países diferentes. De um lado, os crimes complexos de colarinho branco, que desviam bilhões sem deixar rastros visíveis. Do outro, a violência explícita e gratuita, que explode nas ruas e nas redes sociais. Embora pareçam mundos distintos, essas duas faces compartilham um mesmo coração: a sensação de que, para alguns, as regras simplesmente não se aplicam.

Um exemplo recente é o caso do Banco Master. As investigações apontam para um suposto esquema que teria evaporado dezenas de bilhões de reais. O mecanismo envolvia a venda de carteiras de crédito que, na prática, não existiam. É um crime que não usa violência física, mas que enfraquece a confiança de toda a sociedade e consome recursos públicos preciosos.

Enquanto isso, nas praias de Florianópolis, uma história completamente diferente chocou o país. Orelha, um cachorro comunitário conhecido por todos, foi torturado até a morte por um grupo de adolescentes. O caso ganhou as redes porque a agressão foi transmitida ao vivo em uma plataforma na internet. A vida de um animal inocente foi transformada em espetáculo.

O que um bilionário do sistema financeiro e jovens de classe média têm em comum? Ambos os casos são sintomas de uma cultura de impunidade profundamente enraizada. Nos dois cenários, há uma expectativa de que o status social ou o poder econômico servirão como um escudo contra as consequências. É uma lógica perversa que se repete há décadas.

No âmbito dos grandes esquemas, a sensação de impunidade vem da capacidade de contratar defesas caríssimas e de navegar pelas brechas da lei. As investigações se arrastam em sigilos judiciais, os processos se complicam e a opinião pública acaba perdendo o fio da meada. O prejuízo coletivo se dilui em uma névoa de tecnicismos.

Já nos crimes de violência explícita, a impunidade costuma vir da ideia de que se trata de um "desvio de conduta" passageiro. Os agentes são frequentemente vistos como "jovens de boa família" que cometeram um erro. A brutalidade do ato é minimizada, e a justiça pode ser branda, como se o tempo e o privilégio fossem capazes de apagar o sofrimento causado.

Especialistas que estudam o comportamento online alertam para um fato preocupante. A violência extrema contra animais, transmitida ao vivo, não é um incidente isolado. Ela se tornou um fenômeno recorrente em fóruns fechados da internet. Esse ambiente pode dessensibilizar os jovens e fazer com que a crueldade seja vista como uma forma de obter status dentro de certos grupos.

A conexão entre esses universos é o privilégio. No primeiro, é o privilégio do capital, que compra influência e adia a prestação de contas indefinidamente. No segundo, é o privilégio de classe, que oferece uma rede de proteção social e jurídica. A mensagem que fica, infelizmente, é antiga e conhecida: o peso da lei não é igual para todos.

Olhando para trás, vemos que essa não é uma novidade. A história brasileira está marcada por episódios onde a punição não foi proporcional ao crime. Casos graves, envolvendo violência letal ou desvios astronômicos de dinheiro, muitas vezes terminam em penas simbólicas. Isso cria um ciclo vicioso, onde a expectativa de não ser punido encoraja novos abusos.

A violência sistêmica, que corrói instituições, e a violência explícita, que destrói vidas, são alimentadas pela mesma fonte. É a normalização da desigualdade, a ponto de a justiça parecer um serviço sob medida. Para alguns, um longo processo cheio de recursos. Para outros, uma sentença rápida e muitas vezes branda. O resultado é um sentimento generalizado de descrença.

A pergunta que fica não é sobre um caso ou outro, mas sobre o padrão que se repete. Enquanto a sociedade assiste a esses episódios como se fossem tragédias isoladas, o mecanismo que os permite acontecer continua intacto. É um sistema que protege os poderosos e negligencia os vulneráveis, sejam eles humanos ou animais. A sensação é de que alguns podem simplesmente passar por cima de tudo.

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