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Entenda os motivos que levaram a Raízen a pedir recuperação judicial

A Raízen, um dos maiores nomes do setor de açúcar e biocombustíveis do país, deu um passo importante para reorganizar suas contas. Na quarta-feira, dia 11, a empresa entrou com um pedido de recuperação extrajudicial de dívidas. O objetivo é renegociar cerca de 65 bilhões de reais com seus credores, um valor que chamou a atenção de todo o mercado.

A proposta já conta com o apoio inicial de bancos que representam aproximadamente 40% do total devido. Para seguir adiante, no entanto, precisa ser aprovada por mais da metade dos credores. Esse mecanismo permite que a companhia negocie diretamente com um grupo e depois homologue o acordo na Justiça, buscando mais agilidade.

A situação financeira delicada é resultado de uma tempestade perfeita. Os juros altos dos últimos anos encareceram muito o custo da dívida. Problemas climáticos, como secas e incêndios, prejudicaram safras importantes. E os retornos dos investimentos em tecnologia de ponta, como o etanol de segunda geração, ainda demoram a aparecer.

A trajetória de uma gigante

A empresa nasceu em 2011, fruto da união entre a expertise em cana-da-açúcar da Cosan e a gigante rede de postos da Shell no Brasil. Essa joint venture criou na época uma empresa avaliada em 12 bilhões de dólares, com os dois sócios dividindo a participação de forma igualitária. A operação foi aprovada pelo Cade no ano seguinte.

Dez anos depois, a Raízen se tornou um player integrado no setor de energia. Ela não só planta cana e produz açúcar, mas também fabrica etanol comum e avançado, gera bioeletricidade e biogás. Com cerca de 46 mil funcionários, a companhia cultiva mais de 1,3 milhão de hectares e distribui combustíveis para uma rede de nove mil postos.

Sua atuação vai muito além dos postos de gasolina. A empresa abastece aeroportos, grandes frotas corporativas e setores como agronegócio e mineração. Com mais de 70 terminais de distribuição, a operação é robusta. Internacionalmente, a Raízen expandiu suas atividades para a Argentina e o Paraguai, consolidando uma presença de peso na América Latina.

O desafio da inovação verde

Nos últimos anos, a companhia fez uma aposta ousada e cara no chamado etanol de segunda geração, ou E2G. Esse biocombustível é produzido a partir do bagaço e da palha da cana, resíduos que antes seriam descartados. Entre 2021 e 2022, a empresa investiu cerca de três bilhões de reais em novas plantas no interior de São Paulo.

Uma dessas unidades é a segunda maior produtora de etanol celulósico do mundo, com capacidade para 82 milhões de litros por ano. O potencial ambiental é enorme, pois o E2G pode reduzir em até 80% as emissões de gases de efeito estufa comparado à gasolina. A tecnologia, porém, se mostrou mais complexa e cara do que se imaginava.

A produtividade ainda não atingiu as expectativas iniciais, e o retorno financeiro tem sido mais lento. Enquanto isso, o etanol de milho, com custos de produção mais baixos e uma cadeia já estabelecida, ganhou espaço no mercado. Esse cenário tornou o caminho da inovação tecnológica um desafio ainda maior para os resultados da empresa.

A pressão sobre os números

O desempenho financeiro da Raízen sofreu uma virada expressiva. No ano fiscal de 2021/2022, a empresa ainda registrava um lucro líquido de três bilhões de reais, com uma dívida considerada administrável, de 13,8 bilhões. A combinação de fatores adversos, porém, mudou completamente esse quadro nos períodos seguintes.

Até o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026, a companhia acumulou um prejuízo de 15,6 bilhões de reais. Parte expressiva desse valor, cerca de 11 bilhões, veio de um ajuste contábil que reduziu o valor de alguns ativos no balanço. Paralelamente, a dívida líquida disparou, atingindo a marca dos 65 bilhões de reais.

Foi esse cenário que levou ao pedido de recuperação extrajudicial. A medida busca reestruturar a dívida e reorganizar as finanças, mas a empresa garante que todas as suas operações seguem normalmente. A iniciativa visa garantir fôlego para que a companhia continue seus investimentos na transição energética, incluindo projetos de energia solar e biogás.

Apesar dos tropeços financeiros, a Raízen mantém sua posição como uma das principais forças do setor sucroenergético nacional. A capacidade produtiva, a extensa rede de distribuição e os investimentos em bioenergia mostram uma empresa com ativos sólidos. O processo de recuperação agora em curso será decisivo para definir como ela navegará os próximos capítulos.

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