Uma carga de medicamentos comprada com dinheiro público e interditada pela Anvisa agora está parada no Panamá. O produto, que seria usado por pacientes com defesa baixa no SUS, tem validade próxima e um destino bastante curioso. A história envolve uma dívida milionária e uma empresa investigada por lavagem de dinheiro.
Os lotes são de imunoglobulina, um remédio essencial feito a partir de plasma sanguíneo. Ele é crucial para quem tem o sistema imune comprometido, incluindo alguns casos associados ao HIV. O governo federal gastou milhões para adquirir esse produto, mas ele nunca chegou aos hospitais.
A Anvisa interditou a carga em outubro de 2023 por problemas no controle de temperatura durante a viagem. Esse tipo de medicamento biológico precisa ficar entre 2°C e 8°C sempre. Sem esse cuidado, a eficácia e a segurança ficam comprometidas, um risco grave para pacientes já vulneráveis.
O contrato problemático e a dívida
Tudo começou com um contrato de emergência do Ministério da Saúde, no valor de R$ 87 milhões. A ideia era evitar a falta do remédio no país. A escolhida foi a distribuidora Farma Medical, uma empresa sem histórico anterior com a pasta. Ela representava um laboratório dos Emirados Árabes.
Para comprar o primeiro lote, a Farma Medical pegou um empréstimo de R$ 30 milhões com a Insight Participações. Quando a Anvisa barrou o produto, o ministério cancelou o contrato. O governo não desembolsou nenhum real, mas a dívida com a Insight continuava.
Para quitar essa obrigação, a Farma Medical simplesmente entregou os direitos sobre a carga imunoglobulina para a Insight. Em um termo de quitação, autorizou a empresa a tomar todas as providências para exportar o remédio. O dinheiro público, em forma de medicamento, virou moeda de troca.
As empresas e as investigações
A Insight Participações, que recebeu a carga, é alvo da polícia. A empresa e seu fundador, Himad Abdallah Mourad, foram alvo de operações que investigam lavagem de dinheiro do crime organizado. Himad é primo de um suposto líder do PCC que está foragido.
A operação Carbono Oculto, em 2025, mirou a atuação da facção na economia formal. Já a operação Octanagem investigou postos de combustível por adulteração e lavagem. A reportagem não conseguiu localizar Himad para comentários, e a Insight não se manifestou.
Curiosamente, os trâmites para exportar a carga interditada contaram com ajuda de outra empresa: a Star Pharma, uma atual fornecedora de insulina do SUS. Ela atuou dando suporte logístico e regulatório para a operação, embora os documentos oficiais só citem a Farma Medical.
O destino incerto no Panamá
O plano original era devolver os remédios ao fabricante na China. A Anvisa até autorizou a devolução, em vez da destruição, para tentar um ressarcimento. Porém, a China não autorizou a entrada da carga. Sem opção, os mais de 31 mil frascos foram parar no Panamá.
A carga, avaliada em R$ 30 milhões, fica em um limbo. Sua validade vence entre junho e julho deste ano. Documentos de exportação ainda citam a China como destino final, mas a realidade é outra. O produto está retido e logo se tornará totalmente inutilizável.
O Ministério da Saúde afirma que o processo de devolução foi feito com a Farma Medical e que os lotes não podem voltar ao Brasil. A pasta diz que não cabe a ela fiscalizar a carga depois da saída do país. O custo de armazenamento no Brasil será ressarcido ao governo, mas o valor não foi divulgado.
As falhas no processo
A compra excepcional foi feita porque não havia oferta regularizada do produto no Brasil. O problema é que a imunoglobulina importada nem mesmo tinha registro na Anvisa. Isso já indicava um risco alto desde o início, uma situação fora dos padrões normais.
Além disso, a escolha da distribuidora se deu por um chamamento emergencial. A Farma Medical não tinha experiência prévia com o ministério. A estrutura de controle mostrou falhas, desde o transporte até a destinação final de um produto sensível e caro.
O ministério aplicou uma multa de US$ 1,69 milhão no laboratório estrangeiro representado pela Farma Medical. No entanto, não informa se o valor foi pago. Enquanto isso, a carga de um remédio vital segue encalhada no exterior, longe dos pacientes que precisavam dela.
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