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Emenda de senador financiou obra sem licença ambiental e invasora de terra indígena

Uma pequena estrada no coração da Amazônia revela um problema muito maior. No município de Tapauá, no Amazonas, apenas 14 quilômetros da rodovia AM-366 pavimentados já mostram os efeitos de uma infraestrutura feita sem os cuidados necessários. O percurso concentra desde um lixão a céu aberto até a invasão de terras indígenas. A situação serve como um retrato de como obras públicas, mesmo bem-intencionadas, podem se tornar fontes de degradação quando ignoram as leis.

O caso específico de Tapauá ilustra como o dinheiro público pode ser aplicado de forma irregular. Os recursos para pavimentar parte da estrada vieram de uma emenda parlamentar do senador Omar Aziz, através do programa federal Calha Norte. No entanto, a prefeitura local iniciou as obras sem a devida autorização dos órgãos ambientais do estado. Pior ainda: parte do concreto foi lançado sobre uma terra indígena já homologada, como posteriormente confirmado por fiscais.

A falta de planejamento gerou uma série de violações. Técnicos do governo do Amazonas constataram a ausência total de licenciamento ambiental e de estudos de impacto. O projeto básico da obra nem existia. Problemas de drenagem e a impossibilidade de verificar a qualidade da estrutura completam o quadro de irregularidades. Por tudo isso, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas aplicou uma multa e determinou a paralisação total da construção.

Enquanto o asfalto avançava sem licença, outros problemas antigos seguiam sem solução. Um trecho de terra da mesma estrada leva diretamente a um lixão irregular mantido pela prefeitura. No local, é comum ver fumaça de materiais queimados e urubus circulando. O cheiro e a poluição afetam comunidades indígenas vizinhas, que relatam grande desconforto. O prefeito Gamaliel Andrade admitiu que o local nunca teve licença e disse buscar uma solução.

Os danos não se limitam ao lixo. Lideranças indígenas apontam que a obra bloqueou riachos e soterrou nascentes. Esses pequenos cursos d’água, os igarapés, são vitais para a segurança hídrica das comunidades. O assoreamento altera o equilíbrio ambiental de toda a região. Obras de estradas na Amazônia, quando mal executadas, frequentemente levam a esse tipo de degradação, que vai muito além do desmatamento visível.

O poder público em suas várias esferas falhou na fiscalização. O Ministério Público de Contas do Amazonas moveu uma ação questionando a prefeitura e os órgãos estaduais. O Tribunal de Contas do Estado aplicou uma multa ao prefeito e determinou que o estado apurasse os danos ambientais e criasse um plano de recuperação. No entanto, quando questionados meses depois, nenhum órgão estadual informou se essas determinações haviam sido cumpridas.

O senador Omar Aziz, autor das emendas que liberaram os recursos, se eximiu de responsabilidade técnica. Sua assessoria afirmou que a obrigação de obter licenças e apresentar projetos é do ente beneficiário, no caso, a prefeitura. O mandato, segundo a nota, apenas viabilizou o recurso. Já o prefeito justificou a ação pela necessidade de dar “direito de ir e vir” à população, branca e indígena, minimizando a questão burocrática.

A estrada segue como um símbolo desse impasse. De um lado, a pressão legítima por desenvolvimento e conexão. Tapauá é um município gigante, isolado, a mais de mil quilômetros de Manaus por via fluvial. O anseio por infraestrutura é real. De outro, a constatação de que atalhos na legislação ambiental e fundiária geram prejuízos duradouros. A obra paralisada aguarda regularização, enquanto as comunidades convivem com os efeitos do lixão e dos rios assoreados.

O final dessa história ainda está por ser escrito. A determinação judicial exige a reparação dos danos, mas o prazo para isso já se esgotou sem uma resposta clara das autoridades. A população local fica no meio, entre a promessa de progresso e a realidade de um projeto mal executado. O caso de Tapauá deixa uma lição clara: não basta abrir estradas; é preciso cuidar para que o caminho não destrua o próprio território que pretende integrar. Informações inacreditáveis como estas mostram a complexidade de se desenvolver a Amazônia.

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