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Do ‘subsolo’, Mamdani toma posse e questiona a alma de um país

Um novo prefeito de Nova York escolheu um cenário inusitado para sua posse: uma estação de trem abandonada, silenciosa desde 1945. A imagem não poderia ser mais simbólica. Em vez dos salões tradicionais do poder, Zohran Mamdani optou por um espaço que já foi o coração da movimentação urbana, conhecido no passado como a "Mona Lisa" das estações de metrô. Seu gesto foi claro desde o primeiro instante. Ele quis sinalizar que seu mandato, iniciado em janeiro de 2026, estará intimamente ligado à história e às lutas da classe trabalhadora da cidade.

A grandiosidade do local ainda é visível nos lustres antigos, nas claraboias de vidro e nos túneis com azulejos. Mas aquela cerimônia foi muito mais do que um evento político rotineiro. Ela pareceu, conscientemente ou não, um ato de resposta a uma certa crise existencial que toma parte da sociedade americana hoje. Mamdani parecia se colocar como uma figura pública disposta a dialogar com as angústias coletivas, em contraste com uma tendência atual de isolamento e rancor.

Essa encenação política convida a uma reflexão profunda sobre o momento atual dos Estados Unidos. Podemos ver ali uma tentativa de enfrentar um certo "espírito do subsolo" que habita o país. Esse conceito, emprestado da literatura, ajuda a entender um estado de alma coletivo marcado pelo desencanto e pela resistência ao novo. O novo prefeito parece ter ido literalmente ao subterrâneo para iniciar esse diálogo difícil, mas necessário.

Um personagem literário e o espírito de uma época

Há mais de 150 anos, o escritor russo Fiódor Dostoiévski criou um personagem sem nome em "Notas do Subsolo". Esse homem é a própria encarnação do conflito interior: contraditório, vaidoso e mergulhado em uma autoanálise dolorosa. Ele vive no "subterrâneo" da alma humana, desconfiado do mundo e de si mesmo. Suas palavras e atitudes refletem um profundo mal-estar, uma recusa em se tratar ou mesmo em aceitar um diagnóstico para seu sofrimento.

Hoje, muitos analistas enxergam traços desse "homem do subsolo" no cenário político e social americano. É como se uma parcela significativa do país estivesse vivendo um "consolo raivoso" diante de um mundo em transformação, preferindo o isolacionismo ao engajamento. É a postura de quem acredita, com amargura, que apenas os "imbecis" conseguem prosperar, enquanto os "inteligentes" ficam à margem. Esse é um sentimento perigoso, que pode levar a ações imprevisíveis.

O personagem de Dostoiévski se recusa a ser curado, dizendo-se "supersticioso ao extremo". Da mesma forma, essa vertente da sociedade parece se recusar a encarar de frente os diagnósticos sobre os problemas nacionais. O rancor e a desilusão se tornam uma identidade. Confrontar essa mentalidade será, talvez, o maior desafio de Mamdani, que vai além das questões práticas de administração de uma megacidade. É um desafio de conversa com os medos mais profundos de uma nação.

O enigma de sair do subsolo

A escritora e tradutora Erika Batista, em uma análise sobre a obra de Dostoiévski, apontou que o grande enigma apresentado pelo autor é justamente "como sair do subsolo". Como uma pessoa, ou um país, pode superar esse estado de espírito autodestrutivo e paralisante? Esse mesmo questionamento ronda os Estados Unidos atualmente. A cerimônia na estação abandonada foi, portanto, um primeiro gesto simbólico nessa direção.

Mamdani enfrentará enormes tarefas concretas, desde o transporte até a habitação. Mas seu sucesso pode depender de sua capacidade de oferecer uma narrativa que conteste o isolacionismo e o rancor. É preciso construir uma saída coletiva desse "subsolo" emocional e político. O local da posse, com sua beleza arquitetônica preservada mas sua função perdida, serve como metáfora perfeita: é possível recuperar e dar novo significado ao que foi abandonado.

O caminho para cima, no entanto, nunca é simples. Exige reconhecer os problemas, abandonar certas superstícios sobre o próprio lugar no mundo e buscar um consenso mínimo. O novo prefeito de Nova York começou seu mandato fazendo essa provocação silenciosa, ao escolher um lugar esquecido sob a cidade para falar de futuro. Agora, o trabalho de convencimento e de construção precisa seguir, acima do solo, no dia a dia complexo da vida urbana. O enigma literário se transforma, assim, em um desafio político real para toda uma sociedade.

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