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Discurso de Nikolas ignora feridos por raio, pede CPIs e ‘Nordeste livre’

O clima pesado em Brasília nesta tarde não se limitou apenas ao céu carregado. Enquanto a chuva caía e um raio chegou a ferir dezenas de pessoas na Praça do Cruzeiro, o deputado Nikolas Ferreira subiu ao palanque para encerrar uma caminhada política que durou uma semana. Seu discurso, porém, ignorou completamente o acidente que havia acontecido momentos antes no mesmo local. Em vez disso, o foco foi direcionado para seus alvos políticos habituais e para a mobilização de seus apoiadores.

A manifestação, batizada de “Acorda, Brasil”, reuniu caravanas que vieram de ônibus, muitos vestindo as cores da bandeira nacional. O evento teve claramente a intenção de parecer massivo, com grades formando corredores e uma organização que lembrava comícios da campanha presidencial de 2022. O objetivo central parecia ser criar um palco para a família Bolsonaro e seus aliados, usando a grande audiência online do deputado mineiro como amplificador.

Enquanto os bombeiros ainda atendiam as vítimas do raio nas proximidades, o tom dentro do ato era outro. Nikolas Ferreira atacou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, acusando-o de omissão, e exigiu a abertura de duas Comissões Parlamentares de Inquérito. Uma delas seria voltada para investigar o INSS, e a outra, o Banco Master. A justificativa para esta última veio com uma acusação grave envolvendo o nome de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

O discurso e as acusações

Em sua fala, o deputado vinculou uma suposta esposa de um ministro do STF a um contrato milionário com o Banco Master, no valor de 129 milhões de reais. Ele não apresentou provas ou detalhes sobre essa afirmação. Em seguida, partiu para um ataque generalizado ao governo, afirmando que os recursos públicos são desviados de sua finalidade enquanto, segundo ele, o povo sofre. Ele mencionou de forma crítica a situação financeira do filho do presidente Lula.

O parlamentar também fez um apelo direto aos professores, pedindo que “acordassem”. Seu discurso teve um recorte regional específico quando se dirigiu ao Nordeste. Nikolas Ferreira disse acreditar que o PT “manipulou” as pessoas da região e afirmou, de modo profético, que “o Nordeste vai ser livre e vai acordar”. A missão dos manifestantes, segundo ele, era justamente essa: acordar outras pessoas para o que chamou de “verdade”.

O palanque da família Bolsonaro

O evento serviu claramente como um trampolim político para os Bolsonaro. Embora o pré-candidato a presidente, senador Flávio Bolsonaro, não tenha comparecido por estar em viagem internacional, sua presença foi simbólica e constante. Seu nome foi incluído em um jingle antigo que critica o PT, gerando gritos da plateia. Seu rosto também estampava bandeiras ao lado do ex-presidente, acompanhado do slogan “Deus, pátria, família”.

Todos os filhos de Jair Bolsonaro aproveitaram a visibilidade do ato. Flávio fez ligações diretas de Israel e foi chamado de “presidente” por participantes. Carlos Bolsonaro se juntou à caminhada em vários momentos, buscando fortalecer sua própria candidatura ao Senado. Até Eduardo Bolsonaro, que tem divergências públicas com Nikolas, apareceu de forma protocolar, ligando dos Estados Unidos para parabenizar a iniciativa. A ex-primeira dama Michelle Bolsonaro também marcou presença no evento final.

O contexto por trás da cena

A mobilização organizada pela deputada Bia Kicis repetiu a estética dos grandes comícios bolsonaristas. No entanto, por trás da aparente união, há tensões políticas. Flávio Bolsonaro, por exemplo, enfrenta questionamentos dentro da própria direita, onde nomes importantes sinalizam preferência pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como candidato presidencial.

Enquanto isso, Carlos Bolsonaro enfrenta o desafio de construir uma candidatura ao Senado em Santa Catarina, sendo natural do Rio de Janeiro. A caminhada de Nikolas Ferreira, portanto, foi mais do que um protesto isolado. Ela funcionou como um termômetro da capacidade de mobilização e um espaço de projeção para figuras que buscam se consolidar no cenário político nacional, deixando de lado os eventos inesperados que aconteceram logo ao lado.

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