Um relatório do Supremo Tribunal Federal trouxe à tona nomes conhecidos da política pernambucana. Coelho, Lundgren, Souza Leão, Amorim. Esses sobrenomes, que marcaram ciclos econômicos do estado, aparecem agora atrelados a um esquema de desvio de recursos públicos. O documento, com linguagem clara e direta, detalha como grupos familiares usaram cargos eletivos para desviar verbas federais.
O caso tem como cenário principal a cidade de Petrolina, no sertão do São Francisco. A joia do interior nordestino virou palco de uma operação que mistura poder político, indicações para estatais e contratos milionários. Tudo gira em torno de uma empresa específica e de uma teia familiar muito bem articulada.
O mecanismo envolvia a indicação de pessoas de confiança para postos-chave em estatais. A principal era a Codevasf, companhia responsável por obras de desenvolvimento na região. Com aliados dentro do órgão, o grupo passava a direcionar verbas do orçamento federal para municípios onde tinham influência.
A engrenagem do esquema
O relatório do ministro Flávio Dino cita uma conversa reveladora. Em 2019, um ministro do governo federal tranquilizou um senador sobre uma indicação na Codevasf. A frase dita foi: "Pernambuco é do Senhor, Senador". Isso simbolizava o controle que certos políticos tinham sobre cargos e recursos no estado.
Quem assumiu a superintendência regional da Codevasf em Petrolina foi Aurivalter Cordeiro. Ele era um assessor de confiança do ex-senador Fernando Bezerra Coelho. As investigações mostram que a relação ia além do profissional. Havia uma clara subordinação, com o superintendente prestando contas semanais aos políticos.
O objetivo era criar um canal para injetar dinheiro público no município. As emendas parlamentares, verbas que os deputados e senadores destinam a suas bases, eram a ferramenta. Elas eram direcionadas para Petrolina através da Codevasf. Depois, a prefeitura usava esse dinheiro em obras.
A empresa no centro do caso
A empresa que recebeu a maior parte dos contratos foi a Liga Engenharia. De 2017 para cá, ela firmou 22 contratos com a prefeitura de Petrolina. O valor total pago à empresa supera a impressionante marca de 189 milhões de reais. Só em 2024, foram quase 60 milhões em pagamentos.
O crescimento foi meteórico. Em 2017, a Liga era a 27ª maior fornecedora do município. Em 2018, pulou para a 10ª posição. Em 2019, já era a 5ª. Agora, em 2024, assumiu o primeiro lugar no ranking. Essa escalada coincide perfeitamente com o período de atuação do esquema descrito no relatório.
A ligação familiar é explícita. Os sócios da Liga Engenharia são parentes por afinidade da família Coelho. Um é filho do cunhado do ex-senador. O outro é cunhado de um primo dos filhos do político. Em resumo, a prefeitura contratava uma empresa de parentes com dinheiro obtido através de emendas dos próprios políticos da família.
O desmonte de um castelo de areia
O relatório costura todas essas informações com objetividade. Ele mostra um sistema onde o cargo público vira moeda de troca para beneficiar um grupo restrito. A indicação para a estatal, a emenda parlamentar direcionada e o contrato com a empresa familiar formavam um ciclo fechado.
O solo arenoso do sertão, como bem observa o texto, foi a base frágil para essa construção. A operação Desintegração, que investiga o caso, revelou as mensagens trocadas entre os envolvidos. Elas comprovam a coordenação e o comando direto dos políticos sobre o esquema.
Informações inacreditáveis como estas mostram a importância da transparência. O caso segue em investigação, mas o relatório já joga luz sobre mecanismos que infelizmente não são raros. A justiça agora avalia cada detalhe dessa complexa teia de interesses.
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