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Deputados gastam R$ 279 milhões com aluguel de carros, barcos e aeronaves em 7 anos

Nos últimos anos, o dinheiro público usado por deputados federais para alugar carros, barcos e até aeronaves só tem aumentado. De 2019 até agora, a conta já passou dos 279 milhões de reais. E esse valor ainda vai subir, porque as despesas de 2025 ainda estão sendo registradas. O tema ganhou os holofotes na semana passada, após uma operação da Polícia Federal.

Dois parlamentares do Rio de Janeiro foram alvo das investigações por suspeitas de irregularidades com essa verba. Enquanto isso, os números oficiais mostram uma trajetória de crescimento. De 2019 a 2024, os gastos com locações subiram cerca de 18%, mesmo descontada a inflação do período. Só este ano, já foram comprometidos 40,9 milhões.

Todo esse montante sai do bolso do contribuinte, por meio da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar. Popularmente conhecida como "cotão", essa verba cobre desde a manutenção de escritórios nos estados até passagens aéreas. O valor mensal varia conforme o estado de origem do deputado, refletindo principalmente o custo das passagens para Brasília.

O menor valor é destinado aos parlamentares do Distrito Federal: 36,6 mil reais por mês. Já os deputados federais por Roraima recebem a cota mais alta, de 51,4 mil reais mensais. A diferença se justifica oficialmente pela distância e pelo preço dos voos. Essa verba é uma ferramenta de trabalho, mas seu uso específico para locações tem chamado cada vez mais atenção.

Na atual legislatura, o deputado que mais gastou com esse tipo de serviço foi Éder Mauro, do Pará. Seus registros somam 883,5 mil reais, sendo 540 mil só com fretamento de barcos. Por meio de sua assessoria, o parlamentar explicou que o transporte fluvial é essencial em seu estado, onde mais de 70% dos municípios têm acesso predominantemente por rios.

A justificativa faz sentido no contexto regional. Na Amazônia, os rios são verdadeiras estradas, e os deslocamentos podem ser longos. Não por acaso, os quatro maiores gastadores com locações nesta legislatura são todos do Pará ou do Amazonas. O uso de embarcações aparece como uma necessidade prática para atender às bases eleitorais.

No caso do deputado Éder Mauro, a assessoria informou que o carro é o mesmo desde o início do mandato, com valores de mercado. O foco, segundo ele, está no trabalho nas comunidades ribeirinhas. A realidade logística do Norte do país, portanto, cria um cenário distinto do vivido por parlamentares de outras regiões.

A recente operação da Polícia Federal, porém, joga luz sobre casos que fogem à justificativa de necessidade. A ação teve como alvo os deputados Sóstenes Cavalcante e Carlos Jordy. A suspeita é que uma empresa de locação de carros, contratada com a verba da cota, continuou a receber pagamentos mesmo após ser dissolvida irregularmente.

A PF encontrou cerca de 430 mil reais em espécie em um local ligado a Sóstenes. Em documentos, a polícia fala em um "possível caminho do dinheiro" entre uma suposta empresa de fachada e um assessor de Jordy. A Procuradoria-Geral da República identificou indícios de conluio entre as assessorias para dar aparência legal à operação.

Sóstenes disse à imprensa que o dinheiro vivo era proveniente da venda de um imóvel e que não o depositou devido à correria do trabalho. Afirmou ainda sofrer perseguição política. Jordy, por sua vez, publicou um vídeo chamando a ação de "covarde" e negou as acusações, dizendo que aluga da mesma empresa desde seu primeiro mandato.

Os dois casos ilustram como a mesma verba, destinada a um fim legítimo, pode estar no centro de investigações sérias. Enquanto alguns deputados apresentam despesas condizentes com suas realidades regionais, outros são investigados por desvios. O sistema de prestação de contas, que permite o lançamento de despesas até 90 dias depois, segue sob escrutínio.

O aumento constante dos gastos com locações, somado às operações policiais, coloca a cota parlamentar em evidência. A população fica atenta, questionando o equilíbrio entre a real necessidade do trabalho e o uso adequado dos recursos. O debate sobre transparência e controle permanece mais atual do que nunca.

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