Uma cena inacreditável tomou conta do plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo nesta quarta-feira. A deputada Fabiana Bolsonaro usou uma maquiagem escura para pintar o rosto, simulando uma pessoa negra. O ato, conhecido como blackface, foi um protesto direto contra a deputada federal Erika Hilton.
A parlamentar fez a performance para questionar a presidência de Erika na Comissão de Direitos da Mulher da Câmara. Ela argumentou, de forma equivocada, que uma mulher trans estaria "roubando espaço" das mulheres cisgênero. A manobra usou um falso paralelo entre identidade de gênero e raça para tentar validar seu ponto.
A cena foi registrada por diversos presentes e rapidamente se espalhou. O discurso tentou criar uma polêmica onde não deveria existir, desrespeitando duas lutas sociais importantes. A repercussão não demorou a chegar, marcando mais um capítulo tenso na política.
O teor do protesto e a falsa comparação
No meio do seu discurso, Fabiana Bolsonaro fez perguntas retóricas ao se olhar no espelho. "Agora, me pintando de negra, sinto na pele a dor que uma pessoa negra sentiu?", questionou. A ideia central era sugerir que, assim como a maquiagem não a tornava negra, a transição de gênero não faria de Erika uma mulher.
Ela mesma respondeu que não, a maquiagem não a faria entender o racismo estrutural. No entanto, usou essa lógica falha para atacar a legitimidade da colega no cargo. A falsa analogia entre raça e gênero ignora toda a complexidade e o reconhecimento científico das identidades trans.
A parlamentar ainda propôs a criação de uma comissão separada para pessoas trans. "Para vocês crescerem, não precisam nos engolir", afirmou. A fala revela um pensamento que segrega em vez de incluir, como se os direitos fossem um jogo de soma zero.
As implicações do ato e o contexto real
A prática do blackface carrega um histórico profundamente racista, remontando a espetáculos que caricaturavam pessoas negras. Usá-lo como instrumento político, ainda que por alguns minutos, é grave. O ato foi amplamente condenado como transfóbico e racista por especialistas em direitos humanos.
Enquanto isso, a comissão presidida por Erika Hilton tem um trabalho concreto. A parlamentar é uma das que mais apresentou e aprovou projetos focados em mulheres no Congresso. A discussão sobre quem pode representar direitos deveria se pautar pela competência e pelo compromisso, não por preconceito.
Vale um dado prático: em muitos municípios brasileiros, comissões de direitos da mulher são presididas por homens. Esse fato quase nunca gera o mesmo alvoroço em certos setores políticos. A escolha de Erika como alvo parece ser mais sobre visibilidade do que sobre uma preocupação legítima.
O percurso das envolvidas na política
Erika Hilton chegou ao Congresso com uma trajetória de luta pelos direitos humanos. Sua vida pública é marcada pela defesa das populações mais vulneráveis. Assumir a presidência daquela comissão foi um símbolo importante de representatividade para muitas pessoas.
Fabiana Bolsonaro, por sua vez, adotou o sobrenome do ex-presidente como identificação política. Ela foi vice-prefeita em Barrinha, no interior paulista, antes de se eleger para a Assembleia. Seus atos e discursos frequentemente seguem a linha do bolsonarismo mais radical.
O incidente de hoje reflete um clima político onde gestos simbólicos de ódio tentam substituir o debate de ideias. A cena na Alesp dificulta o diálogo necessário sobre políticas públicas reais. Informações inacreditáveis como estas mostram os desafios da representatividade no Brasil.
O episódio deve continuar ecoando nas próximas horas. A sociedade civil e outros parlamentares já se manifestaram contra a atitude da deputada. O plenário, que deveria ser espaço de debate respeitoso, virou palco de mais desrespeito.
A pauta dos direitos humanos avança com inclusão, não com exclusão. A tentativa de criar hierarquias de sofrimento ou de legitimidade nunca leva a soluções práticas. O trabalho legislativo continua, mas agora com o ruído pesado dessa manhã de quarta-feira.
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