Você sempre atualizado

Depoimento em CPI aponta para descaso do Banco Central de Roberto Campos Neto

O sistema financeiro brasileiro está no centro de um debate acalorado no Congresso. Uma CPI que investiga o crime organizado ouviu um depoimento que colocou os órgãos reguladores na berlinda. O advogado Vladimir Timerman, fundador de uma gestora de investimentos, foi à comissão com uma narrativa clara: as autoridades foram avisadas, mas não agiram a tempo.

Segundo ele, o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários receberam alertas formais sobre irregularidades graves. Esses sinais teriam ocorrido bem antes do caso envolvendo o Banco Master ganhar as manchetes. A tese central é politicamente sensível e questiona a eficácia da fiscalização.

O depoimento não mirou apenas os operadores financeiros sob suspeita. O foco principal recaiu sobre o comportamento das instituições que deveriam proteger o mercado. A acusação é de que, mesmo com informações concretas, os órgãos falharam em conter um problema que depois se tornou uma crise.

### As críticas diretas ao Banco Central

Timerman tentou desmontar a ideia de que o caso Master pegou a supervisão de surpresa. Ele afirmou ter feito uma primeira denúncia ao BC, indicando que o empresário Nelson Tanure era sócio do banco. Em seguida, teria formalizado um segundo alerta sobre operações com precatórios.

O ponto central da exposição foi a natureza dos avisos. Ele não teria levado rumores ou suspeitas vagas às autoridades. As denúncias descreveriam com detalhes a estrutura do banco e mecanismos para inflar artificialmente seu balanço patrimonial. Eram, em tese, relatos precisos.

Diante desses alertas, uma pergunta crucial surgiu. Como uma instituição financeira cercada por tantas suspeitas conseguiu operar por tanto tempo sem uma ação mais dura do regulador? A crítica mirou diretamente o período em que Roberto Campos Neto comandava o Banco Central.

### O papel dos precatórios na tese

O capítulo dos precatórios foi usado para explicar o suposto esquema. Segundo o depoente, certos ativos eram comprados por um valor e rapidamente revendidos por cifras muito superiores. Isso gerava um ganho contábil sem lastro econômico real, apenas no papel.

Timerman foi direto ao traduzir a lógica. “O dinheiro era desviado antes de entrar no banco”, afirmou. A operação problemática começaria fora do banco, com ativos superavaliados que depois alimentariam uma aparência falsa de solidez para a instituição.

Para dar concretude, ele citou um exemplo. Um fundo teria comprado um ativo por 136 milhões de reais. Cinco dias depois, vendeu o mesmo ativo por 320 milhões. Esse caso foi apresentado como evidência clara de uma geração artificial de valor.

### A mudança de regra após os alertas

Um ponto revelador do depoimento foi a menção a uma mudança regulatória. Timerman afirmou que, 29 dias após sua denúncia sobre precatórios, o BC publicou a Resolução 346. A norma passou a dificultar esse tipo de operação, exigindo consolidação nos fundos.

A leitura feita por ele é contundente. A mudança não seria prova de um olhar preventivo, mas de uma reação tardia. O problema já estaria instalado quando a autoridade monetária decidiu apertar as regras do jogo, sugerindo ciência prévia da gravidade.

Ele ainda citou que, em junho de 2024, o Ministério Público ouviu o BC sobre a Gafisa. A resposta do banco central teria indicado que os fatos já eram conhecidos. Esse episódio reforçou sua linha principal: havia conhecimento, mas faltou ação ágil.

### As acusações contra a CVM

Se o BC simbolizou a reação tardia, a CVM foi alvo de acusações ainda mais diretas. Timerman disse levar informações à autarquia desde 2019, sobre operações ligadas à Gafisa. Estruturas similares às que depois apareceriam no caso Master.

Um marco decisivo foi um parecer técnico interno de novembro de 2022. Esse documento já apontaria desvios e recomendaria a abertura de um inquérito administrativo. Apesar disso, o inquérito só foi aberto 473 dias depois, uma demora considerada excessiva.

O episódio mais ruidoso foi o relato de uma reunião em fevereiro de 2023. Ao apresentar seu material ao então presidente da CVM, Timerman ouviu uma frase impactante. “Você reclama muito da CVM. Então a gente vai colocar os processos no fundo do escaninho”.

### A conexão entre a Gafisa e o Master

Timerman insistiu em conectar os casos. Na visão apresentada, a Gafisa funcionou como um laboratório do método que depois se aperfeiçoou no Banco Master. O problema não seria um episódio isolado, mas um modelo de operação que se repetia.

Esse modelo envolveria ativos de difícil rastreamento, fundos com várias camadas e estruturas opacas. A consequência seria um ambiente onde a supervisão pública sempre ficava atrás dos fatos, correndo para entender esquemas já consolidados.

Essa ligação foi crucial para sua crítica aos reguladores. Se os sinais apareceram anos antes, com denúncias desde 2019, a tese de que tudo foi uma surpresa perde força. A fiscalização teria tido tempo e informação para agir de forma preventiva.

### A acusação de atraso nas investigações

O tom do depoimento subiu quando Timerman descreveu o papel da CVM. Ele afirmou que a autarquia é “mais culpada” na parte de “não investigar, de bloquear, de mentir para a Polícia Federal”. A crítica saía da ineficiência e entrava em um terreno mais grave.

Na versão apresentada, a CVM não falhou apenas por lentidão burocrática. Ela teria atrapalhado ativamente a circulação de informações para as autoridades investigativas. Um comportamento que vai além da omissão, chegando ao obstrucionismo.

Ele disse ainda que sua denúncia foi vazada e que chegou a ser ameaçado. A resposta encaminhada pela CVM à Polícia Federal sobre as investigações teria retardado o avanço das apurações. Houve, na sua lógica, uma trava institucional ao curso normal do caso.

### Um depoimento sobre falha institucional

No fim, a fala foi menos sobre um banco específico e mais sobre o sistema. Ao mirar BC e CVM com igual intensidade, Timerman ofereceu uma narrativa de omissão e reação tardia. O foco da CPI pode se deslocar dos operadores para os fiscais.

A estrutura montada por ele é linear. Primeiro vieram as denúncias sobre a Gafisa. Depois, os alertas diretos sobre o Banco Master e os precatórios. Mesmo com essa sequência, os órgãos falharam em agir quando ainda era possível conter o problema.

Isso explica o impacto político imediato. Os senadores passaram a discutir não só quem operou a engrenagem financeira, mas quem a viu se formar e, supostamente, nada fez para impedir. A discussão agora é sobre a responsabilidade de quem deveria vigiar.

Os comentários estão fechados, mas trackbacks E pingbacks estão abertos.