A democracia brasileira vive um momento delicado, e entender por que chegamos até aqui exige um olhar para trás. A sensação de instabilidade que tomou conta do país não surgiu do nada em um ano específico. Ela é, na verdade, o resultado de problemas antigos que nunca foram resolvidos de verdade.
Os eventos extremos que vimos em Brasília são a ponta de um iceberg muito maior. Eles simbolizam a explosão de tensões que vinham se acumulando silenciosamente há décadas. A crise, portanto, não é obra de uma única pessoa ou um fato isolado.
Ela nasce da combinação perigosa de várias falhas. Dilemas mal resolvidos desde a redemocratização, escolhas institucionais problemáticas e velhas tendências autoritárias que nunca desapareceram formam o caldo dessa instabilidade. É uma convergência de fatores que enfraquece o sistema por dentro.
### A erosão silenciosa das instituições
O processo no Brasil não se parece com uma ditadura clássica, com um golpe militar anunciado. Aqui, o que acontece é um desgaste lento e constante, quase imperceptível no dia a dia. Pequenos ataques à integridade das eleições, questionamentos à legitimidade do Judiciário e discursos que relativizam a legalidade vão minando a confiança.
Esse fenômeno é chamado de “erosão democrática”. As regras do jogo democrático perdem força aos poucos, corroídas por aqueles que foram eleitos para defendê-las. Desde a Constituição de 1988, não houve uma ruptura violenta, mas sim uma “desconsolidação”. As normas que deveriam nos proteger ficam frágeis.
O risco aumenta quando figuras públicas começam a tolerar e até promover ideias claramente antidemocráticas. Esse ambiente permite que soluções autoritárias, antes inaceitáveis, passem a ser vistas como opções válidas por parte da sociedade. É um caminho perigoso que se abre.
### Os bolsões autoritários escondidos
Um conceito importante para entender nossa situação é o de “enclaves autoritários”. Eles são como bolsões de valores e práticas autoritárias que sobreviveram à transição para a democracia. Não estão sempre ativos, mas permanecem adormecidos, prontos para serem reativados em momentos de crise.
No Brasil, esses enclaves se manifestam de várias formas. Na relação ambígua entre civis e militares, onde falta um controle civil efetivo. Na reorganização política da extrema direita. Na persistente impunidade sobre crimes do passado autoritário. E também na cultura política de desconfiança das instituições.
Esses fatores não determinam sozinhos um retrocesso, mas criam um terreno fértil. Quando lideranças políticas decidem legitimar publicamente essas ideias, dando voz a esses enclaves, o processo de erosão ganha um impulso enorme. Eles saem da sombra e entram no debate principal.
### O populismo que acelera a crise
O bolsonarismo é analisado como um populismo de direita. Seu discurso típico opõe “o povo puro” a uma “elite corrupta”, atacando instituições vistas como inimigas. É crucial entender que esse movimento não inventou o autoritarismo que existe na sociedade. Sua grande façanha foi torná-lo social e politicamente aceitável.
O apoio consistente de cerca de um quinto do eleitorado mostrou uma base sólida para ideias contrárias à democracia liberal. Pesquisas associam esse grupo a uma baixa confiança no sistema eleitoral e uma alta confiança em soluções militarizadas. O populismo, em si, não é incompatível com as eleições.
Pelo contrário, líderes populistas usam as urnas para chegar ao poder. O problema começa depois, quando eles passam a sistematicamente corroer os freios e contrapesos que limitam seu poder. O objetivo é concentrar autoridade, enfraquecendo qualquer instância de controle.
### A reação tardia do sistema
As instituições brasileiras mostraram uma capacidade de reação, mas ela veio tarde. Congresso, Judiciário e órgãos de controle atuaram para conter ameaças explícitas, especialmente durante e após as eleições de 2022. No entanto, essa mobilização aconteceu quando o sistema já estava sob estresse máximo, à beira do colapso.
O Supremo Tribunal Federal assumiu um papel central nessa contenção. Muitas de suas decisões, reconhecidamente, foram além de interpretações constitucionais tradicionais. Os estudiosos veem essas ações como respostas de emergência a uma ameaça concreta e imediata à ordem democrática.
Essa judicialização intensa, porém, trouxe um efeito colateral: aprofundou os conflitos com o Congresso. A política migrou para os tribunais, criando um ambiente de instabilidade permanente e uma disputa interinstitucional que segue até hoje, dificultando a governabilidade.
### O equilíbrio instável que persiste
O diagnóstico final não é de colapso total, mas também não é de recuperação completa. O Brasil está preso em um equilíbrio instável. Os fatores que causaram a crise seguem vivos e ativos. Propostas de anistia para atos antidemocráticos e o apoio social que persiste em setores autoritários são sinais claros disso.
Os enclaves autoritários não foram desmobilizados. Eles apenas recuaram temporariamente, aguardando um novo contexto favorável para voltar à tona. Por isso, a vigilância em defesa da democracia não pode ser um esforço apenas de um momento. Ela precisa ser contínua.
A contribuição mais valiosa desse estudo é mudar o foco. Ele nos tira da análise superficial centrada em personalidades e nos obriga a olhar para a estrutura. A fragilidade da nossa democracia é mais profunda e mais antiga do que o ciclo político recente. Enquanto os dilemas institucionais da transição não forem resolvidos, a instabilidade seguirá sendo uma sombra constante. A democracia pode até sobreviver, mas será sempre de baixa qualidade e sob permanente risco.
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