A indicação de um novo embaixador dos Estados Unidos para o Brasil virou um pequeno drama diplomático. O escolhido é Daniel Perez, um deputado estadual da Flórida com forte ligação com Donald Trump. A nomeação, porém, ainda não foi aprovada pelo governo brasileiro, um passo necessário em relações internacionais.
Em resposta a essa demora, o governo Trump decidiu revogar o visto da atual embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti. A medida é um claro sinal de pressão. A permanência dela no cargo está diretamente ligada à aprovação do nome de Perez pelo Itamaraty.
Daniel Perez tem 39 anos e é visto como um aliado leal do ex-presidente e do movimento Make America Great Again. Sua indicação surpreendeu muitos, já que ele mesmo admitiu conhecer pouco sobre o Brasil. Em entrevista, contou que um de seus filhos perguntou se, no novo destino, “eles têm escolas”.
O perfil do indicado e a política de recompensa
Daniel Perez é presidente da Assembleia Legislativa da Flórida, cargo equivalente ao de um deputado estadual no Brasil. Ele está no fim de seu mandato, limitado a oito anos consecutivos. Conhecido como um político articulado, Perez tem trânsito até com adversários, mas sua lealdade a Trump parece ser seu principal trunfo.
Analistas apontam que, para Trump, nomeações para embaixadas muitas vezes funcionam como uma moeda de troca política. Não é necessário ter carreira diplomática. O critério adicional da atual administração é a fidelidade ideológica. Uma deputada democrata da Flórida ressaltou que cargos de embaixador são usados como recompensa para aliados.
A indicação de Perez seguiu esse roteiro. Ela ocorreu sem consulta prévia ao Brasil, quebrando protocolos. O governo norte-americano agora busca o agrément, que é a aprovação formal brasileira. Enquanto isso não acontece, a embaixadora brasileira nos EUA fica em uma situação delicada e inviabilizada.
Os interesses em jogo e o estilo Trump
Durante sabatina no Senado americano, Perez classificou o Brasil como estratégico. Ele citou o combate ao crime organizado e a defesa dos interesses comerciais dos EUA como prioridades. O nome dele já passou por uma comissão e aguarda votação no plenário do Senado.
Historicamente, Trump tem usado embaixadores para influenciar a política local dos países. Em seu primeiro mandato, seu embaixador na Alemanha declarou querer “empoderar” outros líderes conservadores pela Europa. Esse precedente levanta questionamentos sobre o papel que Perez poderia desempenhar aqui.
Especialistas não descartam que um embaixador com esse perfil possa buscar uma interlocução com grupos bolsonaristas. A nomeação é vista menos como um apoio a uma figura específica e mais como uma forma de pressionar o atual governo brasileiro, fortalecendo a oposição quando conveniente.
O cenário da Flórida e a sombra de Cuba
A força política de Perez vem da Flórida, estado considerado a capital do movimento MAGA. Filho de cubanos que emigraram após a revolução, ele representa um setor da direita que tem em Miami um polo de articulação. Essa comunidade tem peso político e defende uma linha dura contra governos de esquerda.
Dois nomes poderosos da Flórida no governo Trump foram cruciais para a indicação: a chefe de gabinete da Casa Branca, Susie Wiles, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Rubio, também filho de cubanos, é um anticomunista declarado e já anunciou medidas coercitivas contra o Brasil no passado.
Susie Wiles tem uma inimizade pública com o governador da Flórida, Ron DeSantis. Perez, aliado de Wiles, travou disputas legislativas contra DeSantis. Para alguns observadores, a embaixada no Brasil seria uma “recompensa” por esse enfrentamento, consolidando alianças políticas internas.
A indicação de Perez não é isolada. Trump nomeou outros três aliados de Marco Rubio, todos da comunidade cubano-americana, para embaixadas no Panamá, Peru e Argentina. Especialistas veem nisso uma estratégia coordenada para expandir uma agenda política específica na América Latina.
O processo revela uma diplomacia que privilegia a lealdade política em detrimento da experiência. O impasse criado com o governo brasileiro ilustra como essa abordagem pode gerar tensões. O desfecho dessa nomeação ainda depende de uma decisão delicada do Itamaraty, sob o olhar atento de Washington.
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