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Cubanos relatam cotidiano em Havana: ‘Pior momento que já vivemos’

A vida em Havana tem se tornado um desafio diário. Moradores da capital cubana descrevem o presente como o pior momento que já viveram. Os problemas se acumulam: falta de energia constante, preços disparados e transporte público reduzido. A sensação é de que a crise apertou de vez nas últimas semanas.

A arquiteta Ivón Rivas, mãe solo de um menino de nove anos, sente na pele essa realidade. Ela conta que os apagões, antes programados, agora são imprevisíveis e muito mais longos. Em alguns bairros, a luz pode faltar por doze horas seguidas. Planejar o dia, seja para trabalhar ou conservar alimentos, se tornou uma tarefa quase impossível.

A situação é ainda mais severa no interior da ilha. Em muitas províncias, os apagões podem durar quase o dia todo. Isso obriga as pessoas a comprarem comida fresca diariamente, pois não há como conservá-la sem refrigeração. A crise energética, portanto, impacta diretamente a rotina e o orçamento familiar de milhões de cubanos.

### A Crise Que Afeta Todos os Serviços

A falta de energia vai muito além de uma lâmpada apagada. Ela paralisa a cidade. Sem eletricidade, as bombas de água não funcionam, deixando bairros sem abastecimento. Caixas eletrônicos e cartórios ficam inoperantes, complicando transações simples. Até o sinal de telefone e internet falha, isolando ainda mais as pessoas.

Paralelamente, os preços dos produtos básicos subiram em um ritmo assustador. Itens como arroz, óleo e carne de frango, fundamentais na mesa das famílias, ficaram muito mais caros. Esse aumento acelerado pressiona ainda mais um orçamento já limitado, forçando escolhas difíceis no dia a dia.

A raiz do problema energético está no combustível. Cerca de oitenta por cento da energia do país vem de termelétricas. Com as restrições comerciais impostas, fica difícil comprar petróleo no mercado internacional. O resultado é essa escassez crônica que afeta cada aspecto da vida pública e privada.

### Um Momento Mais Severo Que o Passado

Para o economista aposentado Feliz Jorge Brown, de 71 anos, o atual momento supera em dificuldade até a crise dos anos 1990, conhecida como “Período Especial”. Naquela época, após o fim da União Soviética, o país também enfrentou escassez extrema. No entanto, havia um elemento diferente.

Segundo ele, na década de 1990, a população tinha vivido os avanços sociais da Revolução e compreendia a magnitude da crise global. Hoje, há mais incerteza entre os mais jovens. Além disso, o Estado tem menos capacidade de fornecer a cesta básica subsidiada, um apoio que era sistemático.

Feliz Jorge é um exemplo das conquistas sociais da ilha. Filho de imigrantes jamaicanos, ele e seus sete irmãos tiveram acesso a educação e saúde gratuitas. Tornaram-se professores, engenheiros e médicos. Ele próprio foi atleta e representou Cuba internacionalmente, fruto do investimento estatal em esporte.

### O Aperto do Bloqueio e Seus Efeitos

As medidas restritivas internacionais se intensificaram no final de janeiro. A justificativa foi o alinhamento político de Cuba com outras nações. Na prática, isso significou novas barreiras para importar petróleo e limitar serviços médicos, uma vital fonte de renda externa para o país.

Para o governo cubano, trata-se de uma política que sufoca diretamente o povo. Ivón Rivas critica a contradição no discurso externo. “Dizem que querem ajudar o povo cubano, mas no final quem está sendo estrangulado é justamente a população”, observa a arquiteta, destacando o custo humano da estratégia.

A pandemia de covid-19 foi o gatilho inicial do agravamento econômico recente, ao paralisar o turismo. Mas o endurecimento das sanções nos últimos anos aprofundou a crise. A convergência de todos esses fatores criou uma tempestade perfeita de escassez e inflação.

### Transporte, Saúde e a Vida Que Segue

A mobilidade em Havana encolheu. O transporte público, já deficiente, reduziu suas linhas drasticamente. Alguns ônibus só fazem uma viagem pela manhã e outra no fim da tarde. O transporte privado, por sua vez, ficou caro demais para a maioria. Trens entre províncias agora circulam com o dobro do intervalo de antes.

O setor de saúde também sofre. Médicos têm dificuldade de se locomover até os hospitais, o que leva ao cancelamento de consultas. A falta de medicamentos é crítica, afetando até tratamentos para saúde mental. As pessoas buscam remédios onde podem, muitas vezes no mercado paralelo.

Apesar de tudo, a vida tenta seguir seu curso. As crianças continuam indo às escolas, que geralmente ficam perto de casa. Atividades culturais subsidiadas pelo Estado persistem. O filho de Ivón, por exemplo, frequenta uma aula de música gratuita perto de casa, um espaço importante para sua socialização.

A pergunta sobre uma possível mudança política parece distante do cotidiano. Conforme relata Ivón, o cubano comum acorda pensando em como alimentar sua família. Os jovens insatisfeitos muitas vezes desejam emigrar, não organizar protestos. A resistência, para muitos, está na persistência silenciosa do dia a dia.

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