Era uma tarde de dezembro quando Daiane Alves dos Santos, de 43 anos, deixou seu apartamento para verificar uma queda de energia. A corretora de imóveis vestia uma blusa preta, shorts verde e chinelos. Ela filmava tudo com o celular, indignada com mais um corte no fornecimento de luz. Esse registro, enviado a uma amiga, se tornaria a última prova de que ela estava viva. Daiane desapareceu naquele 17 de dezembro, dentro do próprio condomínio onde morava sozinha em Caldas Novas, Goiás.
As câmeras de segurança capturaram sua entrada no elevador, descendo ao subsolo. Não há nenhum registro dela retornando ou deixando a área comum do prédio. O celular foi desativado no mesmo dia. Para a família, que chegou de Uberlândia no dia seguinte, o silêncio era um sinal de alerta. A mãe, Nilse Alves, percorreu hospitais e os outros apartamentos da família no local, mas não encontrou pistas.
A investigação ganhou um rumo decisivo com a quebra do sigilo bancário. A polícia verificou que não houve nenhuma movimentação financeira após o sumiço. Esse dado, somado ao histórico de conflitos de Daiane com a administração do condomínio, direcionou os trabalhos. As peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar apontando para um cenário sombrio dentro do próprio local onde ela deveria estar segura.
Um conflito que escalou
Os problemas de Daiane com o condomínio não eram novidade. No ano anterior, os moradores chegaram a realizar uma assembleia para discutir sua expulsão do prédio. A alegação envolvia supostos barulhos e comportamentos considerados inadequados. De acordo com relatos, 52 dos 58 condôminos votaram a favor da medida. No entanto, a decisão não foi adiante.
Uma liminar da Justiça invalidou a ordem de expulsão. A mãe de Daiane revelou que a filha e a advogada da família foram impedidas pelo síndico de participar daquela reunião decisiva. Esse impasse judicial deixou um clima de tensão permanente. O apartamento sem energia, filmado por Daiane, era mais um capítulo dessa relação conturbada, como ela mesma suspeitava na gravação.
Nas imagens, ela comenta com outro morador no elevador. Explica que estava filmando porque alguém “brincava de desligar” seu padrão de energia, mesmo com as contas em dia. Esse detalhe prático mostra o nível de desgaste no convívio. A corretora se mudara para Caldas Novas justamente para administrar seis imóveis que a família possuía no mesmo edifício, um fato que tornava a situação ainda mais complexa.
As peças do investigação
Com a pista das contas bancárias paradas e o celular fora do ar, a Delegacia de Homicídios assumiu o caso. A hipótese de um sequestro ganhou força entre os investigadores. A suspeita era de que Daiane tenha sido colocada no porta-malas de um carro, que deixou o condomínio por uma área sem cobertura de câmeras. A segurança do local era limitada, com pontos cegos como a área do relógio de energia.
Na manhã de quarta-feira, dia 28, a polícia prendeu duas pessoas. O síndico do prédio, Cléber Rosa de Oliveira, e seu filho, Maykon Douglas de Oliveira, foram levados para a delegacia. De acordo com a Polícia Civil de Goiás, Cléber confessou o crime e levou os agentes até o local onde havia escondido o corpo. O destino trágico de Daiane foi confirmado em uma área de mata na região.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos presos para ouvir sua versão dos fatos. O condomínio também não se pronunciou. O caso, que começou com um simples registro de falta de energia, expôs uma tragédia que chocou a cidade. As imagens do elevador, o vídeo do celular e a confissão do síndico desenham um quadro difícil de digerir sobre até onde um conflito de vizinhança pode chegar.
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