O Corinthians conquistou seu quarto título da Copa do Brasil, um feito histórico que trouxe alegria à torcida. A vitória veio acompanhada de uma premiação milionária, algo em torno de 98 milhões de reais. No entanto, a celebração por esse dinheiro precisa ser moderada, porque a realidade financeira do clube é bem complicada.
A maior parte desse prêmio já tem destino certo: pagar dívidas. Só nos cartórios, foram localizados mais de 57 milhões de reais em protestos contra o time. Esses são valores que credores precisaram registrar oficialmente porque não foram pagos. A situação mostra que o dinheiro que entra rapidamente escoa para cobrir compromissos antigos.
Isso é só a ponta do iceberg. O Corinthians lidera a lista dos clubes mais endividados do Brasil, com um passivo que chega perto de 2,7 bilhões de reais. Um número tão alto que é difícil até de visualizar. Para se ter uma ideia, essa dívida representa cerca de duas vezes e meia toda a receita anual do clube. É um buraco que foi se cavando ao longo de muitos anos.
De onde vêm tantas dívidas?
O principal credor é a própria Fazenda Nacional, ou seja, os cofres públicos. Ela responde por 99% do valor encontrado nos protestos cartoriais. São dívidas relacionadas a impostos federais que o clube deixou de recolher e repassar, como IR, INSS e FGTS dos funcionários. Em setembro e novembro, foram registradas certidões que somam dezenas de milhões.
Além do governo, aparecem fornecedores comuns do dia a dia do clube. Uma empresa de coleta de lixo, por exemplo, fez doze protestos por valores não pagos. Outras companhias, como uma de medicina diagnóstica e empresas de comunicação, também estão na lista. Até um valor simbólico de 145 reais, referente a uma taxa do governo estadual, foi protestado.
Essa escolha de prioridades – pagar salários de jogadores, mas não os fornecedores que mantêm a operação – é considerada um erro grave por especialistas. Esses fornecedores são essenciais para o funcionamento do clube. Deixar de honrar esses compromissos é um sinal claro de estrangulamento financeiro, que pode levar a bloqueios de contas e penhoras de receitas no futuro.
O peso do estádio e as decisões do passado
Uma parte significativa desse endividamento colossal está ligada à construção da Neo Química Arena, concluída em 2014. O custo inicial foi astronômico e, com os juros altos do período, a dívida com a Caixa Econômica Federal não diminuiu como o planejado. Estima-se que só do estádio, ainda restem cerca de 700 milhões de reais para pagar.
Mesmo se excluirmos a dívida da arena, o restante, que gira em torno de 1,9 bilhão, só faz crescer desde 2014. Economistas apontam um padrão: é uma dívida de operação, caracterizada pela não recolhimento crônico de impostos e encargos trabalhistas. Cerca de 1 bilhão são salários atrasados e parcelamentos de tributos. Foi uma bola de neve que se formou de forma premeditada, com gastos acima da capacidade real.
O clube gasta como se fosse financeiramente saudável, mas a verdade é outra. Para 2025, a projeção é de um prejuízo de aproximadamente 270 milhões de reais. O time precisa urgentemente reduzir custos de forma drástica para buscar algum equilíbrio. Caso contrário, a solução extrema pode ser a única saída.
As consequências no dia a dia e o futuro
O reflexo imediato desse caos é a incapacidade de honrar compromissos correntes e até aqueles que foram renegociados. Os credores, sem receber, passam a usar todas as ferramentas legais, o que só piora a situação do clube. O que era uma bola de neve já se transformou em uma avalanche, com sérios riscos para o futuro da instituição.
Um exemplo prático e grave é a punição sofrida pela Fifa. Por não pagar parcelas da compra do zagueiro Félix Torres ao Santos Laguna, do México, o Corinthians está impedido de registrar novos jogadores. É um bloqueio que paralisa o planejamento esportivo. A diretoria corre para desembolsar cerca de 40 milhões de reais e resolver essa urgência.
Consultores são diretos: sem um corte radical de gastos, a tendência é que apenas a transformação em uma Sociedade Anônima de Futebol possa salvar o clube. A diretoria tenta agora equacionar as obrigações mais urgentes para conseguir respirar em 2026. O caminho será longo e exigirá decisões muito difíceis para uma das torcidas mais apaixonadas do país.
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