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Contradições em depoimentos de Vorcaro e ex-presidente do BRB podem levar a acareação

A investigação sobre o caso Master segue movimentando os corredores do poder em Brasília. Os depoimentos de dois personagens centrais, prestados nesta semana à Polícia Federal, trouxeram novos elementos – e algumas contradições. Essas divergências podem ser o próximo capítulo de um processo que já envolve bilhões em supostos contratos falsos e a liquidação de um banco.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, passaram mais de duas horas cada um sendo interrogados. Eles são investigados no esquema de venda fraudulenta de carteiras de crédito. As versões que apresentaram não bateram em todos os pontos, segundo fontes próximas ao caso. Esse tipo de contradição costuma levar a um passo seguinte no processo penal: a acareação.

Uma acareação é um confronto direto entre depoentes. A ideia é colocar as pessoas frente a frente para que o juiz, ouvindo os debates, possa buscar a versão mais fidedigna dos fatos. No direito, é um recurso usado para sanar inconsistências entre acusados, testemunhas ou vítimas. No caso do Master, a possibilidade de uma acareação entre Vorcaro, Costa e mais um nome já havia sido sinalizada.

O papel do ministro Toffoli

O processo que investiga o Master é conduzido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Desde o início de dezembro, todas as medidas da investigação passam pelo crivo dele. Foi Toffoli quem determinou a realização dos depoimentos desta semana e quem havia marcado previamente uma possível acareação entre os investigados. Essa decisão anterior aos interrogatórios gerou certo estranhamento.

Normalmente, a acareação é um recurso utilizado depois que as contradições nos depoimentos individuais ficam evidentes. A expectativa era que a Polícia Federal ouvisse todos separadamente, apontasse as divergências e então se avaliasse a necessidade do confronto. A inversão na ordem dos acontecimentos levantou questionamentos sobre a estratégia adotada.

Agora, após os depoimentos, a assessoria do ministro informou que caberá à própria Polícia Federal avaliar se a acareação é realmente necessária. Apesar da mudança no discurso, fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o procedimento inicial, que previa o confronto, segue de pé. A sensação é de que a responsabilidade foi repassada, mas o roteiro original não foi alterado.

O núcleo da investigação

O escândalo que levou à queda do Banco Master gira em torno de uma operação de venda fraudulenta. A investigação aponta que, antes mesmo de um negócio ser formalizado, o banco teria forjado e vendido carteiras de crédito consignado para o BRB. O montante envolvido é astronômico: cerca de R$ 12,2 bilhões. Desse total, R$ 6,7 bilhões seriam de contratos falsos.

Os outros R$ 5,5 bilhões corresponderiam a prêmios e bônus, um valor que supostamente representaria o potencial futuro dessa carteira. A descoberta desse esquema resultou na liquidação compulsória do Banco Master, determinada pelo Banco Central em novembro do ano passado. Daniel Vorcaro, controlador do banco, chegou a ficar preso por doze dias e hoje cumpre medida cautelar com tornozeleira eletrônica.

O caso também atingiu em cheio o BRB, o banco público do Distrito Federal. A instituição, que comprou os créditos supostamente falsos, teve seu então presidente afastado do cargo. As repercussões financeiras e políticas do esquema ainda estão sendo calculadas, enquanto as investigações tentam mapear toda a extensão do prejuízo.

Novos desdobramentos e temores

A urgência em algumas decisões do ministro Toffoli tem causado apreensão entre aqueles que acompanham o caso. Pouco antes do Natal, oficiais de Justiça estiveram no escritório do Master em São Paulo. Eles procuravam o liquidante da instituição, Eduardo Félix Bianchini, um servidor aposentado do Banco Central que foi designado para cuidar do processo de liquidação do banco.

A visita alimentou a expectativa de que Bianchini seria intimado a prestar esclarecimentos. No entanto, ele passou o Natal com a família fora de São Paulo e não foi localizado. O gabinete do ministro Toffoli negou, por meio de sua assessoria, ter dado a ordem para o envio dos oficiais de Justiça naquela ocasião. O episódio, porém, ilustra a tensão e a velocidade com que os eventos vêm ocorrendo.

Enquanto isso, um terceiro depoente também prestou esclarecimentos nesta semana: Ailton de Aquino, diretor de Fiscalização do Banco Central. Ele foi ouvido após aguardar por mais de cinco horas no STF. Ao final do seu depoimento, foi dispensado de uma possível acareação com Vorcaro e Costa. Seu testemunho é considerado chave para entender o papel do regulador em todo esse episódio.

O que esperar dos próximos capítulos

O andamento do processo é mantido em sigilo, como é comum em investigações dessa complexidade. O que se sabe é que as contradições nos depoimentos já foram formalmente identificadas. Esse é o combustível que move uma acareação. Se ela de fato ocorrer, será um momento crucial, onde as narrativas se chocam diretamente.

O resultado desse confronto pode ajudar a esclarecer pontos obscuros da operação de venda das carteiras de crédito. Para o ministro Toffoli, que é o responsável pela decisão final no processo, cada detalhe conta. A versão que se mostrar mais consistente e corroborada por outras provas terá um peso significativo na sentença.

O caso Master segue como um quebra-cabeça de proporções bilionárias. Cada nova audiência, cada depoimento e cada documento revelado adiciona uma peça. A sociedade acompanha, à espera de respostas sobre como um esquema desse tamanho pôde se formar e quais lições podem ser aprendidas para evitar que se repita.

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