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Como uma televisão assumiu um papel estratégico na ofensiva de Trump contra a democracia

A relação entre a Fox News e a administração Trump alcançou um nível de simbiose que impressiona. Em muitos países, líderes autoritários precisam impor controle sobre a mídia. Nos Estados Unidos, um canal de notícias voluntariamente se alinha ao poder, moldando narrativas com precisão cirúrgica. Esse fenômeno vai além do apoio político tradicional, criando uma realidade paralela para milhões de telespectadores.

Um trágico incidente em Minneapolis ilustra esse mecanismo de forma cristalina. Renee Good, uma cidadã americana, foi morta durante uma ação de um agente de imigração. A cobertura da emissora, no entanto, escolheu um caminho específico. O foco não estava na perda de uma vida, mas em detalhes pessoais selecionados a dedo. Ela foi apresentada como uma “autodeclarada poeta” e lésbica, com um filho de um relacionamento anterior.

A descrição a rotulava como uma “agitadora”, questionando até mesmo sua formação educacional. O objetivo parecia claro: construir uma imagem que ressoasse com preconceitos de parte do público. Dessa forma, a vítima era gradualmente desumanizada, transformada num símbolo de tudo que certos grupos desaprovam. A simpatia pelo ocorrido era, assim, minada na origem.

Essa metodologia não é um acidente isolado. Ela reflete uma estratégia consolidada de comunicação. A poetisa Juliana Monteiro observou, em um texto recente, como o “Grande” do “Make America Great Again” não se aplica a todos. Certamente não se aplica a poetisas, nem a qualquer pessoa que escape de um padrão conservador rígido. A narrativa é seletiva e excludente por natureza.

A defesa ferrenha das ações da polícia de imigração é apenas um exemplo recente. A parceria entre o canal e a presidência foi reafirmada com força para a campanha de 2024. Após a vitória, a ligação se tornou ainda mais orgânica. Donald Trump nomeou nada menos que dezenove ex-funcionários da Fox para cargos importantes em seu governo. Setes deles ainda trabalhavam no canal quando foram anunciados.

Nomes como Pete Hegseth, que comandou um programa de fim de semana, assumiram posições de alto escalão. Hegseth hoje chefia o Departamento de Defesa. Já Sean Duffy, conhecido de reality shows, virou secretário de Transportes. Essa migração em massa de apresentadores para o governo é um caso único na história da mídia americana. A linha entre o jornalismo e o poder executivo simplesmente se dissolveu.

A recompensa por tamanha lealdade veio em forma de acesso privilegiado. A Fox News foi escolhida para a primeira entrevista televisiva de Trump no Salão Oval, em 2025. O jornalista Sean Hannity, que conduziu a entrevista, era tão próximo do presidente que ganhou o apelido de “chefe de gabinete paralelo”. Para o restante da imprensa, ficou claro desde o início que a Fox funcionaria como o canal oficial de comunicação da Casa Branca.

Em um episódio revelador, perguntas sobre uma possível crise entre Trump e o bilionário Elon Musk foram rebatidas pela porta-voz presidencial. A resposta foi direta: o assunto já havia sido tratado na Fox News. A mensagem era clara: para entender o governo, era necessário sintonizar aquele canal específico. A imprensa tradicional foi, deliberadamente, colocada em segundo plano.

A influência da emissora é quantificável e vasta. Pesquisas recentes indicam que cerca de 38% dos americanos consomem notícias regularmente pela Fox. Entre republicanos com mais de 65 anos, esse número salta para 76%. Esse alcance transforma o canal em um braço de fato do Partido Republicano, capaz de influenciar a opinião pública em escala nacional. A cobertura é frequentemente construída sobre uma base de indignação seletiva e polarização.

Enquanto medidas controversas são tomadas – de intervenções internacionais a retrocessos em direitos civis –, a narrativa da emissora trabalha para normalizá-las. Ações radicais são emolduradas como “bom senso” ou necessárias para proteger os interesses de um grupo específico. Esse processo justifica abusos de poder e confere um selo de aprovação popular a decisões da Casa Branca. O ódio e a desconfiança são direcionados metodicamente.

O caso de Minneapolis serve como um microcosmo desse ecossistema maior. A morte de uma democracia raramente é um evento súbito. Ela é precedida pela erosão lenta de valores compartilhados e pela corrosão da verdade comum. Quando uma parcela significativa da população consome uma realidade fabricada, o terreno para a aceitação do inaceitável fica fértil. A cumplicidade midiática, portanto, não é um detalhe secundário.

Ela é parte fundamental do processo. A transformação do discurso público, a desumanização de adversários e a canonização do poder formam uma trindade poderosa. Essa dinâmica redefine os limites do que é considerado normal na política. O resultado é um panorama onde fatos disputam espaço com narrativas emocionais, e a lealdade muitas vezes fala mais alto que a precisão jornalística. O episódio da poetisa de Minneapolis, infelizmente, não é a exceção. É a regra de um novo padrão que se consolidou.

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