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Como uma cabra fez Brigitte Bardot abandonar o cinema e abraçar o ativismo

Brigitte Bardot já era uma lenda do cinema quando decidiu deixar tudo para trás. Na década de 1970, a sensação francesa percebeu que a magia das filmagens havia se esvaído. Ela mesma contou que não via mais grandes histórias ou diretores inspiradores. O cansaço era real, mas o estopim final veio de um gesto inesperado e muito pessoal.

Durante as filmagens de sua última película, em 1973, ela conheceu uma figurante e sua cabra. Bardot visitava o animal sempre que podia. Um dia, a senhora revelou seus planos para o bicho: um churrasco para celebrar a Primeira Comunhão de seu neto. A atriz ficou horrorizada. Na mesma hora, comprou a cabra e a levou para seu quarto de hotel. Aquele foi o momento decisivo. Ela disse adeus às telas para salvar vidas.

A partir dali, uma nova missão tomou conta de sua vida. Nos anos seguintes, ela mergulhou de cabeça no ativismo animal. No começo, as coisas eram amadoras, feitas de forma improvisada. A burocracia, porém, logo mostrou seus obstáculos. Um amigo a aconselhou a criar uma fundação para ter mais força legal. O grande desafio era conseguir os fundos necessários, uma quantia que ela não tinha.

Da fama ao ativismo radical

Para juntar o dinheiro, Brigitte Bardot tomou uma atitude drástica. Ela decidiu leiloar praticamente todos os seus bens de valor. A lista incluía joias valiosas, móveis da família, sua guitarra e até o vestido de noiva de seu primeiro casamento. Não poupou nem mesmo uma estátua da Marianne, símbolo nacional francês criado com suas feições. A venda foi um sucesso.

Com o montante arrecadado, ela finalmente concretizou seu sonho. Em 1988, nasceu a Fundação Brigitte Bardot. Anos depois, para fortalecer a instituição, ela doou também sua famosa propriedade em Saint-Tropez. Foi um gesto que exigiu desprendimento total. Ela se via, a partir dali, como uma verdadeira guerreira em defesa dos animais. A organização ganhou musculatura para atuar nos tribunais e promover suas causas.

Sua luta ganhou reconhecimento internacional. Em 2001, ela recebeu um importante prêmio da organização PETA por seus esforços. Seus alvos eram variados. Durante a Copa do Mundo de 2002, por exemplo, ela defendeu um boicote a produtos da Coreia do Sul. O protesto era contra o consumo de carne de cães e gatos no país. Sua voz era usada sem medo para causar impacto e chamar a atenção do mundo.

Polêmicas e controvérsias constantes

Nem toda a trajetória de Bardot como ativista foi celebrada. Suas declarações fortes frequentemente a colocaram em rota de colisão com a justiça. Em 1997, ela foi condenada por racismo na França. O motivo foi uma entrevista na qual criticou um ritual religioso islâmico de sacrifício de ovelhas. Para ela, a prática era uma forma de tortura. A fala rendeu uma multa e uma doação obrigatória a grupos de direitos humanos.

As condenações não pararam por aí. Em 2021, um tribunal francês a considerou culpada novamente por insultos racistas. Tudo começou com uma carta que ela enviou em 2019, criticando o tratamento dado aos animais na ilha de Reunião. No texto, ela se referiu aos habitantes locais de forma ofensiva, mencionando "genes selvagens". Mesmo após pedir desculpas, a justificativa para as palavras foi o sofrimento dos animais.

Seus alvos também incluíam figuras públicas de grande influência. Em 2015, ela escreveu uma carta peculiar para Choupette, a gata do estilista Karl Lagerfeld. No texto, pedia ao felino que convencesse seu dono a parar de usar peles em suas coleções. Dois anos depois, voltou sua crítica ao papa Francisco. Em uma missiva, questionou por que o pontífice focava na migração humana e esquecia o "mundo infinito de dores sem voz" que são os animais.

Sua vida, portanto, foi marcada por uma transformação profunda. Da aurora como símbolo sexual do cinema mundial ao crepúsculo como ativista incansável, Bardot nunca passou despercebida. Sua paixão pelos animais a redirecionou por completo, embora seus métodos e palavras tenham gerado tanto admiração quanto repúdio. Ela trocou as luzes do estúdio pelo calor das batalhas judiciais e dos protestos públicos, sempre guiada por uma convicção inabalável.

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