Nos últimos anos, a agência de imigração dos Estados Unidos, conhecida como ICE, transformou-se em algo muito maior do que seu nome sugere. Com um orçamento colossal e tecnologia de ponta, sua atuação vai além das fronteiras e da fiscalização de imigrantes. A instituição agora possui ferramentas de vigilância que permitem monitorar pessoas em escala massiva, levantando debates urgentes sobre os limites de seu poder e o foco de sua verdadeira missão.
A mudança não foi pequena. Em 2025, o orçamento do ICE saltou para impressionantes 28 bilhões de dólares. Esse valor é três vezes maior que o do ano anterior. Para os três anos seguintes, estão previstos mais 56 bilhões. Só para se ter uma ideia, com esse montante, a agência figuraria como a 14ª maior força militar do mundo em termos financeiros, rivalizando com países como Ucrânia e Israel.
Esse crescimento explosivo aconteceu sob a gestão de Donald Trump, que injetou recursos vultosos na instituição. O dinheiro foi usado para adquirir um arsenal tecnológico sofisticado, incluindo parcerias com empresas israelenses e contratos com gigantes da análise de dados. O objetivo declarado é fortalecer a segurança fronteiriça, mas os métodos adotados estão sob forte questionamento.
Acesso total aos celulares
Uma das táticas mais comuns do ICE começa com o acesso físico a um telefone celular. Isso pode acontecer quando alguém é detido em uma fronteira ou está sob custódia da agência. Para burlar senhas e desbloquear aparelhos, o ICE investiu milhões em empresas especializadas. Uma delas, a Cellebrite, recebeu 11 milhões de dólares para fornecer essa tecnologia.
O processo vai muito além de desbloquear a tela. A ferramenta faz uma imagem completa de todos os dados do aparelho. Isso inclui fotos, notas, histórico de localização, registros de chamadas e mensagens de texto. A coleta atinge até aplicativos de mensagem criptografada, como WhatsApp e Signal. Em apenas três meses, mais de 14 mil telefones foram alvo desse monitoramento pela polícia de fronteira americana.
E se o agente não tiver o telefone em mãos? Isso não é mais um obstáculo. O ICE também adquiriu, por 2 milhões de dólares, um spyware da empresa israelense Paragon. Esse aplicativo malicioso pode ser instalado remotamente e coleta mensagens de apps criptografados sem que o dono do celular perceba. A ferramenta já foi encontrada em dezenas de ativistas da sociedade civil na Itália, mostrando seu alcance global.
Monitoramento nas redes sociais
A vigilância não para nos celulares apreendidos. O ICE também investe pesado para rastrear pessoas através das redes sociais e da localização em tempo real. A agência gastou 5 milhões de dólares em ferramentas como Webloc e Tangles. Elas coletam a localização de milhões de telefones e cruzam essas informações com dados públicos das redes.
Esses sistemas são capazes de criar um dossiê detalhado de qualquer pessoa com um perfil público. Eles vinculam o histórico de postagens aos locais por onde a pessoa passou. Além disso, mapeiam a rede de contatos mais frequentes do indivíduo monitorado. Na prática, o ICE consegue rastrear os movimentos de alguém sem necessidade de uma ordem judicial.
O plano é ampliar ainda mais essa capacidade. A agência pretende investir até 50 milhões de dólares em um centro de monitoramento de mídias sociais que funcionará 24 horas por dia. O objetivo é vasculhar todas as principais plataformas em busca de pistas que possam levar a operações de deportação. É uma vigilância constante e automatizada.
Conexões políticas e polêmicas
Um dos aspectos mais preocupantes para ativistas são as conexões políticas por trás da tecnologia. O ICE tem contratos milionários com a Palantir, empresa de análise de dados. Um dos fundadores da Palantir é Peter Thiel, bilionário que doou para campanhas ultraconservadoras e é aliado de Trump. Sua filosofia é associada a um movimento que questiona a democracia.
Thiel nasceu na Alemanha Oriental e migrou para os EUA ainda criança. Hoje, a tecnologia que ele ajudou a criar é usada para deportar imigrantes. A parceria entre a Palantir e o ICE levanta questões sobre os interesses que guiam o uso dessa vigilância em massa. A linha entre segurança nacional e perseguição política parece ficar mais tênue.
Outro contrato extremamente polêmico garantiu ao ICE acesso aos dados de saúde de imigrantes. O acordo com o Medicaid, programa de saúde americano, permite que a agência obtenha informações sigilosas. O texto do contrato é claro: o objetivo é conseguir dados sobre identidade, localização, endereço, e-mail e até contas bancárias dos estrangeiros.
Impactos na vida real
Toda essa espionagem tem consequências práticas e assustadoras. Organizações de direitos humanos alertam que o compartilhamento de dados médicos com o ICE faz com que famílias imigrantes evitem procurar atendimento de saúde. O medo de ser localizado e deportado se sobrepõe até à necessidade de cuidado médico, afetando inclusive crianças que são cidadãs americanas.
Uma pesquisa de 2025 mostrou que metade dos imigrantes adultos já temia que autoridades de saúde repassassem suas informações ao ICE. Essa política amplia um clima de terror que prejudica a coesão social e a saúde pública. O receio não se limita aos sem documentação, mas atinge também residentes legais e seus familiares.
O risco de abuso de poder é real. O diretor do ICE chegou a afirmar que a agência estava dedicada a perseguir grupos antifascistas e clubes de tiro de esquerda. Para entidades como a Electronic Frontier Foundation, o perigo é que essas ferramentas sejam usadas contra cidadãos americanos que se manifestam contra a agência ou trabalham com comunidades imigrantes. A vigilância em massa, uma vez instalada, raramente conhece limites.
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