O Ceará vive um momento decisivo na segurança pública. Enquanto o estado enfrenta o avanço de facções criminosas, a resposta do governo tem sido marcada por uma presença policial mais intensa e um aumento recorde de prisões. Este caminho, porém, traz consigo um debate complexo sobre os resultados e os custos humanos de uma estratégia considerada linha-dura. A população sente na pele os dois lados dessa moeda: a expectativa de proteção e o peso das operações que frequentemente terminam em tragédia.
O mês de outubro de 2025 ilustrou bem essa tensão. No último dia do mês, o governador comemorou em suas redes sociais uma operação em Canindé que terminou com sete suspeitos mortos, mas sem baixas entre policiais ou civis. No entanto, aquele mesmo outubro se tornou o mês mais letal em ações policiais no estado em anos, com 41 mortes. O contraste entre a celebração de uma ação e a estatística sombria do período revela a complexidade do cenário.
A estratégia tem nome: Integração Saturação Total. Diversas fases dessa operação foram lançadas, focando no combate a grupos como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro. Os números mostram um esforço massivo. De janeiro a outubro de 2025, mais de 2.400 pessoas foram presas por suspeita de envolvimento em mortes violentas. As apreensões de armas bateram recordes, e os índices de roubo caíram.
### A política de segurança e seus números
Os dados oficiais apontam uma redução de 6,9% nas mortes violentas totais em 2025, interrompendo uma tendência de alta. Apesar da queda, o Ceará ainda ocupa uma triste terceira posição no ranking nacional de assassinatos em números absolutos. Paralelamente, um indicador específico segue na direção oposta. As mortes decorrentes de intervenção policial subiram 5,3% no mesmo período, alcançando 199 casos.
Para a Secretaria de Segurança, o aumento da letalidade policial está diretamente ligado ao acirramento dos conflitos entre facções rivais. A explicação é que, diante de um cenário mais violento, os agentes usam os mecanismos legais para se proteger e proteger a sociedade. O governo também investiu em aumentar o efetivo, nomeando três mil novos policiais e criando uma polêmica lei que permite a compra de até dez dias de férias dos profissionais, mediante interesse próprio.
Essa medida, porém, acendeu um alerta. Especialistas questionam o impacto do trabalho sem descanso adequado na saúde dos agentes. A pressão por resultados imediatos pode ter um custo oculto, transferido para o próprio estado de espírito da tropa e, no futuro, para os cofres públicos, com o possível aumento de licenças médicas.
### O desgaste invisível da tropa
Um estudo da Universidade Federal do Ceará jogou luz sobre um problema grave. Pesquisando mais de 1.800 policiais militares, a análise revelou uma corporação sob estresse extremo. Quase 70% dos entrevistados apresentam algum grau de comprometimento em suas funções. Mais preocupante: 44% já pensaram em deixar a carreira e 26% vivem um sofrimento psíquico intenso.
Esse adoecimento coletivo é visto por críticos como um sintoma previsível de um modelo que sobrecarrega a polícia com ações ostensivas, sem investir o suficiente em prevenção inteligente. A rotina de violência não desgasta apenas os agentes. Ela pressiona diariamente as famílias que moram em territórios dominados pelo crime, onde a face mais visível do estado é justamente a repressão policial.
Foi nesse contexto que surgiram movimentos como o Mães da Periferia, que nasceu após episódios traumáticos como a Chacina do Curió, em 2015. Naquele ano, uma ação policial na periferia de Fortaleza terminou com onze mortos e sete feridos. A dor dessas famílias se transformou em busca por justiça e memória, como no livro “Onze”, que reúne relatos dos parentes das vítimas.
### Entre a repressão e a prevenção
A condenação de alguns policiais envolvidos na Chacina do Curió, com penas que somam centenas de anos, foi um marco. Para as mães que lutam por respostas, porém, a maior reparação seria evitar que novas mortes acontecessem. Esse sentimento ecoa no debate sobre a necessidade de equilibrar a ação policial com políticas sociais robustas.
De um lado, o governo cearense aposta em programas como o PreVio, que recebeu financiamento internacional para atuar na prevenção da violência em dez municípios. Do outro, parlamentares e especialistas defendem uma mudança de foco. Eles pregam uma estratégia protetiva, baseada em evidências, que identifique jovens vulneráveis e os proteja da captação pelo crime.
O presidente do Comitê de Prevenção à Violência da Assembleia Legislativa argumenta que medidas populistas de força podem render apoio político, mas não resolvem o problema de fundo. É preciso, segundo ele, criar redes comunitárias sólidas, garantir o retorno dos adolescentes à escola e oferecer apoio às famílias que já foram vitimadas pela violência.
O secretário de Segurança reconhece a importância da proteção social, mas insiste que ela deve andar junto com leis mais duras para crimes violentos. A visão é de que o estado oferece oportunidades, mas quem escolhe o caminho do crime precisa enfrentar consequências severas. O desafio, portanto, permanece: encontrar um ponto de equilíbrio que realmente proteja a população, sem sacrificar vidas ou aprofundar ciclos de violência.
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