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Casa Branca rejeita proposta da ONU para governança global da inteligência artificial

A inteligência artificial está moldando nosso futuro, mas quem deve ditar as regras desse jogo? Em uma recente cúpula global na Índia, essa pergunta gerou respostas bem diferentes. De um lado, a Organização das Nações Unidas quer criar um painel científico internacional para guiar o desenvolvimento da tecnologia. Do outro, os Estados Unidos rejeitam completamente a ideia de uma governança global. O debate revela uma divisão fundamental sobre como lidar com uma das inovações mais transformadoras do nosso tempo.

Enquanto isso, líderes de países em desenvolvimento, como o Brasil e a Índia, levantam uma bandeira crucial: a inteligência artificial não pode servir apenas aos países mais ricos. Eles alertam que, sem regras que pensem em todo o mundo, a tecnologia pode ampliar ainda mais as desigualdades que já existem. O temor é que os benefícios fiquem concentrados em poucas mãos, enquanto os riscos sejam distribuídos de forma desigual.

O cenário é complexo e os interesses, diversos. De empresas de tecnologia a governos nacionais, cada ator tem uma visão sobre o melhor caminho a seguir. A conversa vai desde a proteção de empregos e dados pessoais até a soberania tecnológica das nações. Neste momento, definir os limites éticos e práticos da IA se tornou uma das discussões mais urgentes da nossa era.

A posição firme dos Estados Unidos

Durante o encontro em Nova Délhi, o conselheiro de tecnologia da Casa Branca deixou claro o pensamento americano. Michael Kratsios afirmou que o governo rejeita “totalmente” qualquer proposta de um mecanismo internacional de governança para a inteligência artificial. A visão de Washington é que estruturas centralizadas e burocráticas podem acabar travando a inovação.

Para os Estados Unidos, a chave do progresso está na competitividade e na liberdade para que empresas e pesquisadores desenvolvam novas soluções. Eles argumentam que regras muito rígidas e universais, impostas por um órgão global, poderiam sufocar o dinamismo do setor. A preferência é por frameworks nacionais ou acordos específicos entre países aliados.

Essa declaração foi dada pouco antes da divulgação do documento final da cúpula, marcando uma posição de resistência ao consenso que se formava. A postura reflete uma estratégia de manter a liderança tecnológica, um campo onde americanos e chineses travam uma disputa acirrada. A mensagem é que a regulação não pode custar a vantagem competitiva.

A proposta de governança global da ONU

Horas antes, o secretário-geral da ONU, António Guterres, havia apresentado uma proposta na direção oposta. Ele anunciou o plano de criar um Painel Científico Internacional Independente sobre IA, formado por quarenta especialistas. O modelo seria inspirado no painel que estuda as mudanças climáticas, o IPCC, conhecido por suas avaliações baseadas em evidências.

Guterres defende que entender profundamente os limites e capacidades da inteligência artificial é o primeiro passo para criar regras inteligentes. A governança, na visão da ONU, não é um obstáculo, mas uma forma de garantir que o progresso seja seguro e benéfico para todos. A ideia é construir políticas públicas a partir de ciência sólida, não apenas de interesses comerciais.

A proposta busca estabelecer um marco comum para que países com diferentes níveis de desenvolvimento possam navegar os riscos e oportunidades. O objetivo é evitar um cenário caótico, onde cada nação adote regras completamente distintas, fragmentando o ambiente digital global. Um painel técnico teria a autoridade para emitir alertas e recomendações consensuais.

Os alertas sobre desigualdade e poder

O presidente Lula da Silva levou ao debate uma preocupação central para o Brasil e muitas outras nações. Ele destacou que, sem uma coordenação internacional forte, a inteligência artificial corre o risco de aprofundar desigualdades históricas. Em sua fala, Lula lembrou que algoritmos não são neutros; eles carregam as visões e os interesses de quem os cria.

Quando poucas empresas e poucos países controlam as infraestruturas digitais básicas, o debate deixa de ser puramente técnico. Ele se transforma em uma questão de concentração de poder econômico e geopolítico. O receio é que a distância tecnológica entre nações ricas e pobres aumente, criando uma nova forma de dependência.

A Índia, país sede do evento, compartilha dessa visão estratégica. O primeiro-ministro Narendra Modi afirmou que a IA deve ser direcionada para o bem comum global. O país busca usar a cúpula para atrair investimentos e reduzir sua distância em relação aos grandes polos tecnológicos. Para essas nações, a regulação é também uma ferramenta para garantir sua própria autonomia.

O caminho adiante para a inteligência artificial

A cúpula na Índia foi a primeira realizada em um país em desenvolvimento, um simbolismo importante. Ela mostrou que a conversa sobre inteligência artificial precisa ser verdadeiramente global, incluindo vozes que representem a maioria da população mundial. Os temas foram desde a proteção de crianças online até os impactos no mercado de trabalho.

Esta foi a quarta reunião anual do tipo, e a próxima está marcada para Genebra, em 2027. O desafio colossal que fica após os discursos é transformar declarações políticas em compromissos concretos e ações mensuráveis. Enquanto as propostas são debatidas, a tecnologia continua a evoluir em um ritmo acelerado, criando novas realidades todos os dias.

O consenso que parece estar se formando, mesmo entre vozes divergentes, é que algum tipo de marco é necessário. A questão que permanece é se esse marco será voluntário e liderado pelo setor privado, como preferem os EUA, ou se surgirá de um esforço coletivo e multilateral. O futuro da inteligência artificial, afinal, é um assunto que afeta a todos.

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