O cenário político se prepara para mais uma eleição municipal, mas um processo judicial de longa data segue sem uma conclusão definitiva. O caso envolve um vereador que busca a reeleição enquanto responde a investigações por crimes financeiros. As acusações, que incluem desvio de verbas públicas e lavagem de dinheiro, tramitam no Ministério Público do Rio de Janeiro desde 2019.
A investigação começou após reportagens revelarem um suposto esquilo dentro do gabinete parlamentar. Servidores teriam sido coagidos a devolver parte de seus salários, em uma prática conhecida popularmente. O inquérito já passou por várias mãos na promotoria, mas ainda não chegou a um desfecho que possa esclarecer a situação perante os eleitores.
O último movimento importante ocorreu no início deste ano, quando a cúpula do MP decidiu enviar o processo para uma nova promotoria. A ordem foi realizar diligências complementares, ou seja, apurar mais detalhes. Essa decisão veio após a Justiça determinar um reexame do caso, que já dura quase sete anos sem avanços significativos.
As provas coletadas ao longo da investigação
Diversas peças foram reunidas pelos promotores ao longo desses anos. Uma delas envolve a movimentação de um cofre compartilhado em um banco. Registros mostram que o vereador acessou esse cofre em datas específicas e coincidentes com grandes transações imobiliárias de familiares. Em um desses episódios, um apartamento foi comprado com uma parte considerável do valor pago em dinheiro vivo.
A análise da vida financeira do parlamentar também apontou padrões curiosos. Seu chefe de gabinete, por exemplo, aparece pagando sistematicamente diversas contas pessoais do vereador. Foram identificados boletos de cartão de crédito, planos de saúde e até multas de trânsito quitados por esse funcionário, somando dezenas de milhares de reais ao longo de sete anos.
Chama a atenção o fato de que, em nove anos, apenas uma fatura de plano de saúde foi paga diretamente da conta do vereador. As demais foram liquidadas por terceiros, levantando suspeitas sobre a origem desse dinheiro. As investigações apontam para a possibilidade de que os valores tenham vindo do esquema de devolução de salários.
Os pagamentos que se estenderam à família
As descobertas não se limitaram às despesas do próprio investigado. A mesma perícia bancária identificou que o chefe de gabinete também quitou contas de outros membros da família. O ex-presidente Jair Bolsonaro, a primeira-dama Michelle Bolsonaro e a mãe do vereador, Rogéria Bolsonaro, tiveram despesas pagas por esse funcionário.
O documento do Ministério Público ressalta um ponto crucial: não há registros de que essas pessoas tenham feito depósitos ou transferências de valores equivalentes para o funcionário em datas próximas. Essa ausência de comprovação de reembolso torna as transações ainda mais atípicas do ponto de vista financeiro e contábil.
Além disso, o próprio chefe de gabinete foi formalmente acusado de receber cerca de dois milhões de reais em sua conta. O dinheiro teria partido de outros seis servidores nomeados pelo gabinete do vereador. Esse fluxo fortalece a tese de um sistema organizado de repasse de recursos públicos dentro do escritório parlamentar.
Aquisições e doações sob suspeita
Dois grandes investimentos pessoais do parlamentar também estão no radar dos investigadores. Em 2010, ele comprou um carro utilizando cinquenta e dois mil reais em cédulas. Dois anos depois, adquiriu um apartamento no centro do Rio por cento e oitenta mil reais. A análise patrimonial, no entanto, indica que sua renda declarada naqueles anos não era compatível com esses gastos.
Outro ponto envolve uma doação familiar declarada à Receita Federal. O vereador informou ter doado cento e trinta mil reais ao irmão, Flávio Bolsonaro, hoje senador. Contudo, ao menos setenta mil reais desse total nunca apareceram nas contas bancárias do destinatário. O valor também não foi declarado no imposto de renda do irmão, criando uma discrepância nos registros oficiais.
Em seu depoimento, o chefe de gabinete fez uma declaração que chamou a atenção dos peritos. Ele afirmou que toda a família do vereador tinha o hábito de sacar integralmente seus salários das contas bancárias. A informação, somada às outras evidências, compõe um quadro de movimentação financeira que os promotores tentam decifrar há anos, enquanto o processo aguarda novos capítulos.
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