A candidatura de Flávio Roscoe ao governo de Minas trouxe de volta os holofotes para sua trajetória à frente da Federação das Indústrias do estado. Seus quase oito anos no comando da entidade são agora revisitados sob um novo prisma. Esse período coincide com uma rede de relações institucionais que conecta a FIEMG a figuras centrais do mercado financeiro mineiro.
A descoberta dessa rede começou com mensagens obtidas na CPI do INSS. Elas revelaram a existência de um grupo de WhatsApp chamado “Cons Estratégico FIEMG”. A lista de participantes incluía o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Esse vazamento levantou perguntas sobre a natureza das conexões entre a entidade empresarial e o grupo financeiro.
A partir daí, um cruzamento de documentos públicos e registros societários foi realizado para mapear os integrantes. A própria FIEMG confirmou, por escrito, que o grupo é oficial e administrado por ela. O canal serve para envio de comunicados e avisos sobre as atividades do conselho. A federação foi categórica: só participam os representantes das empresas que fazem parte do colegiado.
A estrutura oficial do conselho
A FIEMG explicou que o Conselho Estratégico existe há mais de quinze anos. Ele reúne cerca de cinquenta das maiores empresas do estado. Participam grupos industriais, companhias de diversos setores e instituições financeiras. Seu papel é técnico e consultivo, debatendo temas como competitividade e desenvolvimento econômico.
Flávio Roscoe assumiu a presidência da federação em maio de 2018. Ele se tornou o mais jovem presidente da história da entidade. Foi reeleito para um segundo mandato, que começou em 2022. Uma mudança nos estatutos prorrogou sua gestão até 2026. Ele deixou o cargo em abril deste ano para se filiar ao PL e entrar na corrida eleitoral.
As informações apuradas indicam que Daniel Vorcaro participava do conselho durante a gestão Roscoe. A confirmação veio da própria FIEMG, que disse o grupo de WhatsApp é restrito a seus integrantes. Além do banqueiro, outro empresário de seu círculo também estava no colegiado.
Conexões que se ampliam
Lucas Kallas, presidente do Grupo Cedro, integrava o Conselho Estratégico desde 2021. Posteriormente, ele se tornou sócio de Daniel Vorcaro na farmacêutica Biomm. Essa parceria comercial ampliou os laços entre os dois empresários dentro do ecossistema mineiro. A participação de Vorcaro no conselho já havia sido questionada publicamente antes.
Em uma reunião ambiental estadual, um representante da sociedade civil perguntou se o banqueiro fazia parte do colegiado. A pergunta, registrada em ata, citava um print vazado do celular de Vorcaro. O questionamento foi direto: ele foi expulso do conselho? A ata não traz nenhuma resposta oficial da FIEMG sobre o tema naquele momento.
O vínculo institucional não se limitou ao conselho. Em maio de 2022, a FIEMG se tornou uma das principais defensoras do projeto de mineração da Tamisa na Serra do Curral. Roscoe convocou uma coletiva e criticou o que chamou de “terrorismo ambiental” contra a obra. Na época, a estrutura de controle da mineradora não era pública.
Defesa de interesses específicos
Documentos societários mostraram depois que a controladora da Tamisa era o fundo Victoria Falls. Esse fundo era controlado economicamente pelo Banco Master, de Daniel Vorcaro. A conexão ganha um componente político relevante com uma ação do senador Flávio Bolsonaro.
Ele apresentou uma emenda que limitava a responsabilização civil de bancos por danos de empreendimentos. A proposta beneficiava setores que dependem de financiamento privado, como mineração. Era justamente uma área onde o grupo de Vorcaro tinha investimentos, incluindo a Tamisa.
Enquanto Bolsonaro defendia essas mudanças legislativas, seu candidato em Minas presidia uma entidade que apoiava um empreendimento ligado ao banqueiro. As relações se estenderam para outros eventos. Em 2023, o economista-chefe do Banco Master foi palestrante em um evento importante da FIEMG.
Dois anos depois, a Itaminas, mineradora da qual Vorcaro era acionista, patrocinou o Prêmio FIEMG de Economia. A federação reiterou que o conselho tem caráter apenas técnico. O grupo de WhatsApp, criado em 2017, seria apenas um canal de comunicação, sem deliberações. A entidade mantém que as atividades seguem seus propósitos institucionais originais.
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