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Brasil deve manter aposta em Bachelet para candidatura para a ONU

A política internacional às vezes parece um jogo de xadrez com peças que se movem quando menos esperamos. Um desses movimentos recentes envolve uma figura conhecida dos brasileiros: a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet. Ela está na corrida para se tornar a próxima secretária-geral das Nações Unidas, um dos cargos mais importantes do mundo. A surpresa veio quando seu próprio país, o Chile, decidiu retirar o apoio oficial à sua candidatura.

Isso aconteceu após uma mudança de governo em Santiago, com a vitória de uma coalizão de direita. Apesar do revés, Bachelet não desistiu. Ela anunciou que segue firme na disputa, agora sustentada pelo apoio de outras duas grandes nações da região. Brasil e México mantiveram seu respaldo à candidata, considerando-a a pessoa certa para o momento. O pleito que definirá o sucessor de António Guterres só ocorrerá em outubro, mas a movimentação já começou.

A posição brasileira, até onde se sabe, é de continuar apoiando a chilena. A avaliação em Brasília é que ela reúne qualificação e experiência únicas para o desafio. O Itamaraty enxerga o cenário global atual como uma crise profunda do multilateralismo, aquele sistema de cooperação entre países. Nesse contexto, uma liderança com o perfil de Bachelet é vista como muito valiosa. O tema, claro, será discutido pessoalmente com o presidente Lula, mas a tendência é que o apoio seja confirmado.

Por que o Chile mudou de ideia?

A candidatura de Michelle Bachelet começou como um projeto conjunto e simbólico. Foi lançada oficialmente em fevereiro pelos presidentes do Brasil, México e do próprio Chile, Gabriel Boric. Era uma demonstração de unidade e força da América Latina na cena global. O plano seguia um acordo informal dentro da ONU: após oito décadas lideradas por homens, era hora de eleger uma mulher para o cargo máximo. A chanceler chilena parecia uma candidata natural para fazer história.

No entanto, as eleições chilenas trouxeram um novo governo ao poder, liderado por José Antonio Kast. Seu irmão, curiosamente, foi ministro durante a ditadura de Augusto Pinochet. A vitória dessa força política representou uma guinada significativa. Uma das primeiras decisões em política externa foi justamente revisar o endosso à candidatura de Bachelet, uma ícone da esquerda latino-americana. A decisão reflete mais uma divisão política interna do que uma avaliação sobre sua capacidade para a ONU.

Essa retirada de apoio não é um mero formalismo. Em diplomacia, o suporte do país de origem é um pilar fundamental para qualquer candidato. Sem ele, a campanha perde uma base importante de legitimidade e força de barganha. Ainda assim, Bachelet possui um capital político internacional considerável, construído em seus dois mandatos como presidente do Chile e durante seu período como alta comissária da ONU para os Direitos Humanos. Esse histórico pesa a seu favor, mesmo sem o apoio oficial de Santiago.

O que significa esse apoio do Brasil?

Manter o apoio a Bachelet é uma sinalização clara da política externa brasileira. Mais do que um gesto para uma pessoa, é uma declaração de princípios. O governo brasileiro está indicando que valoriza a experiência, a trajetória em defesa de direitos humanos e a capacidade de diálogo que a ex-presidente chilena representa. Em um mundo polarizado, Brasília aposta em um perfil que pode facilitar conversas entre blocos distintos.

Há também um cálculo estratégico. Ter uma latino-americana, e especialmente uma pessoa com proximidade ao Brasil, no comando da ONU, pode abrir portas. Questões globais que impactam diretamente nossa região, como segurança alimentar, mudanças climáticas e crises migratórias, poderiam ganhar mais espaço na agenda internacional. É uma forma de fortalecer a voz do Sul Global nas decisões mais importantes.

O caminho até outubro, contudo, será longo e cheio de negociações. A decisão final envolve os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, cada um com seus interesses e vetos potenciais. O apoio do Brasil e do México dá fôlego à candidatura, mas não garante a vitória. A disputa pelo cargo costuma ser uma das mais disputadas e discretas do mundo. A persistência de Bachelet, mesmo sem o apoio de casa, mostra que ela entende as regras desse jogo complexo. A partida internacional apenas começou.

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